A Igreja Cristã rumo à Igreja do Primeiro Século

Em todos os meus livros, tenho repetido propositalmente sobre a história da Igreja, mostrando o seu gradativo distanciamento da Igreja do Primeiro Século e do Judaísmo Messiânico.

O grande desafio no momento, creio, é tentar restaurar a Igreja do primeiro século, procurando saber como ela era, como funcionava, onde se reunia, o que pregava, e como viviam Yeshua, seus apóstolos e os discípulos destes. Além disso, qual era a relação deles com a Torá e os livros dos Profetas?

Pessoalmente, creio que a Igreja está entrando no último período de sua história. Primeiro, tivemos a autêntica Igreja do primeiro século; depois, esta mudou-se para Roma, e passou a ser dirigida de lá, à partir do século IV. No século XVI, tivemos a Reforma Protestante, e agora, creio, muitos entrarão na fase da Restauração de todas as coisas, conforme dito em Atos 3:19-21: ...”Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, de sorte que venham os tempos de refrigério, da presença do Senhor, e envie ele o Cristo, que já dantes vos foi indicado, Jesus, ao qual convém que o céu receba até os tempos da restauração de todas as coisas, das quais D’us falou pela boca dos seus santos profetas, desde o princípio.”

Se tirarmos uma “foto” espiritual da Igreja Cristã atual (considerando todos aqueles crentes em Jesus, e que passaram pelo “novo nascimento” no espírito), descobriremos muitos e muitos pontos que necessitam ser repensados, se considerarmos a Igreja deixada por Yeshua e seus discípulos como modelo a ser seguido.

A Igreja de Yeshua vivia no contexto judaico da época, fiel aos princípios da Torá ou de todo o Tanach (chamado Antigo Testamento), quando Paulo afirmou em sua carta a Timóteo que: ...“toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de D’us seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra.” ( II Tim 3:16-17). Na época em que Paulo escreveu este texto, obviamente não existia ainda o que conhecemos por Novo Testamento, composto pelos quatro evangelhos, outras cartas do próprio Paulo, João, Pedro, Tiago e outros. Quando Paulo diz “Escrituras”, com certeza absoluta estava referindo-se ao Tanach judaico.

Yeshua era e continua sendo judeu. As Escrituras são 100% judaicas, e foram escritas segundo o contexto do pensamento judaico, tendo como base a santa Torá, um conjunto de livros escritos pelo próprio D’us através de Moisés. Os profetas seguiram essas mesmas instruções (Torá significa “instrução, Palavra de ensino de D’us”). Yeshua e seus discípulos viveram também dentro deste padrão de fé e revelação.

Não tenho aqui nenhum propósito de chocar meus irmãos de fé, e tão pouco trazer confusão, com doutrinas novas. Absolutamente, não! Apesar de não ver a Igreja atual vivendo integralmente nos moldes existentes no primeiro século, vejo-a cumprindo sua missão de levar as Boas Novas às nações, segundo o “ide” de Yeshua, salvando milhares e milhares de vidas, por meio da fé no Messias, nosso único caminho para a salvação e a vida eterna. Portanto, vejo a Igreja Cristã como bênção e me sinto parte deste Corpo.

Mas, com amor, carinho e respeito, gostaria de levantar alguns questionamentos históricos sobre a Igreja da Reforma (incluindo aqui suas inúmeras ramificações e denominações) em relação à Igreja Católica, da qual aquela se separou.

Os Evangélicos em geral, sentem-se muito confortados pela abençoada Reforma, da qual, desligaram-se há mais de 4 séculos, do sistema da Igreja de Roma; mas será que nada precisa ser mudado, em relação a este estado de “conforto”?

Sabemos que uma coisa é ser livre, e outra é ser liberto. São dois processos diferentes, que deveriam andar sempre juntos, mas às vezes, isto não acontece na prática. Que a Igreja da Reforma saiu de Roma, e aparentemente do seu sistema, sabemos que é verdadeiro, mas como ela está em relação à autoridade de sua antecessora? Analisemos alguns pontos, por exemplo:

1. A Igreja Católica reconhece que mudou o dia do Senhor de sábado para o domingo, por meio de muitos Concílios como o de Laodicéia (ano 336d.C.), após o Imperador Constantino ter pedido a “Venerablis Die Solis” (O venerável Dia do Sol). Vários líderes da Igreja trabalharam a favor desta mudança, como Graciano, Valentiniano, Teodósio e outros, no século IV. Depois, no século V, o Papa Inocêncio publicou a guarda e o jejum aos domingos. O Concílio de Orleans reforçou a mudança do sábado para o domingo, e finalmente no ano 590 d.C., o Papa Gregório solidificou para sempre o domingo, como o dia do Senhor. São inúmeros os textos bíblicos que mostram a Igreja do Primeiro século celebrando o Shabat. Qual tem sido a opção da Igreja da Reforma em relação a este ponto?

2. A Igreja Católica desvinculou-se do calendário litúrgico judaico, para impor seu próprio calendário. Ela se diz neste direito, e não temos o que discutir. Mas, cabe a nós a decisão de segui-lo ou não. Por exemplo, os evangélicos celebram o mesmo domingo da ressurreição definido por Roma. O fato em si não é, em minha opinião, nem um pouco relevante. Mas, o que estou propondo à discussão é sobre o princípio de autoridade que foi estabelecido. Para mim, a Bíblia deve ser o nosso único padrão de fé e conduta; se a Bíblia apresenta um calendário litúrgico, por que, então, não seguí-lo?

3. A Igreja Católica nunca negou que o Natal foi de sua autoria. Fixou o dia 25 de dezembro como o dia do nascimento de Cristo. Neste dia, os romanos celebravam também o “Natalis invicti Solis” (O nascimento do sol vitorioso). Qual tem sido a postura da Igreja da Reforma em relação à esta celebração? (observe que não estou preocupado com o dia, mas com o princípio de autoridade de quem assim determinou);

4. O calendário civil, chamado também de Gregoriano (seguindo o sistema solar) é universalmente seguido por todos os cristãos; todos, sem exceção, consideram o 1º. de Janeiro como o início do ano civil, já adotado mundialmente como o calendário de todas as nações; e quanto ao calendário bíblico, que é lunar?

5. A Igreja Católica diz que à ela foram entregues as “Chaves do Reino”, quando nomearam Pedro como seu primeiro Papa. Ela, então, define o que é bíblico e o que não é bíblico, o verdadeiro do não verdadeiro (falso), pois se vale desta autoridade afirmada por tradição, que ela delegou a si mesma para definir os princípios da fé cristã. Assim, a partir do século IV ela decretou que é a substituta de Israel e do povo judeu. Ou seja, os judeus messiânicos (crentes) deveriam se converter ao catolicismo a partir daquela data para serem salvos, bem como, deveriam deixar de ser judeus. Paralelamente, a Igreja de Constantinopla publicou sua profissão de fé, pela qual todo judeu deveria renunciar a seus costumes, ritos, festas bíblicas, língua, orações, etc.; além de exigir juramento do judeu converso, o qual seria anátema caso um dia voltasse a ser judeu. Qual tem sido a posição da Igreja da Reforma quanto a este item? Por acaso ela reconhece o chamado irrevogável de D’us ao seu povo escolhido? Ou ela também se sente como substituta de Israel, sob a dispensação da graça?

6. A Igreja de Roma, através do Concílio de Antioquia, proibiu os cristãos de celebrarem a primeira festa do calendário litúrgico, ou seja, a Páscoa, pois assim, as demais festas cujas datas são contadas a partir desta, estariam indiretamente também canceladas. A Igreja da Reforma também não entendeu o real sentido messiânico das festas bíblicas, e as têm ignorado, atribuindo-as somente ao judaísmo tradicional;

7. A Igreja Católica definiu o que é graça, e a separou por completo das leis da Torá. Como a Igreja da Reforma se posiciona quanto aos conceitos e princípios das leis, em relação à vida de um crente em Jesus? Poderia esse crente se beneficiar dos aspectos qualitativos da Lei? Ou a dispensação da graça anula estes princípios? Vemos que há um grande abismo, quanto ao entendimento do que vem ser a Lei sob a forma de mandamentos, estatutos e ordenanças. Alguma coisa é captada como por exemplo: o estatuto judaico do dízimo. Mas, e quanto às outras leis judaicas? Elas foram anuladas pela graça e não podem abençoar a vida de um crente? Claro que sim! Se não, que sentido teria a prática da lei judaica do dízimo? Por que não encontramos um imperativo deste estatuto no Novo Testamento? Por acaso, pelo fato de não o encontrarmos, foi ele anulado, somente porque se encontra no Antigo? Claro que esta lei abençoa e muito aquele que crê e o pratica. Assim também, outras centenas de leis do AT estão disponíveis para os crentes em Jesus. Por que a Igreja da Reforma não se atentou ainda para a importância dessas leis, sob o enfoque da qualidade de vida?

8. Marcião ajudou à compilar o que denominou de Novo Testamento. Depois, ele definiu que o Tanach seria chamado de “Velho Testamento”, ou seja, livro só para os judeus, e que o Novo Testamento é o conjunto de livros para os cristãos. Assim, a Igreja Católica definiu a cronologia dos Livros da Bíblia independentemente da tradição e do pensamento judaico. Hoje, a Igreja da Reforma continua obedecendo os mesmos princípios, e toda Bíblia usada por eles tem escrito logo em sua capa “Velho e Novo Testamentos”, diferindo completamente da ordem Cânon e da cronologia bíblica judaica;

9. A Igreja Católica definiu que o Batismo seria em “Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Hoje a Igreja da Reforma segue a mesma fórmula e não se deu em conta que em nenhum lugar do Novo Testamento encontramos um apóstolo batizando assim, exceto em Mateus 28:19, que não aparece nos manuscritos mais antigos, conforme Eusébio de Cesaréia, em sua obra História Eclesiástica – São várias as passagens em que vemos os apóstolos batizando em nome de Jesus (Yeshua), como Atos 2:38;8:16;19:5; e outras passagens;

10. A Igreja Católica valendo-se da língua latina, traduziu muitos nomes de profetas e o próprio nome de Yeshua para versões que não trazem em si, suas interpretações originais. Por exemplo, Jesus, que no latim é “Iesus”, foi a transliteração do termo grego “Iesous”, que por sua vez é a transliteração da palavra hebraica “Yeshua”, que quer dizer “D’us é salvação”, nome este que consta tanto no AT como no NT. O mesmo acontece com o nome de D’us;

11. A Igreja de Roma não deu importância à língua hebraica. Com isto, perdeu-se muito do contexto judaico das Escrituras. Por exemplo, poucos cristãos sabem o que significa o acróstico AMÉM ou o termo “Barách” que significa abençoar. No sentido hebraico “Barách” significa conceder a alguém poder para que este que recebe a benção seja bem sucedido e próspero. Existem inúmeros erros de tradução, frutos de desconhecimento da língua hebraica, a começar pela alteração dos nomes dos Livros da Bíblia, como Torá (Instrução, Ensino de D’us) para Pentateuco, de “Shemot” (Nomes) para Êxodo; de “Bamidbar” (No Deserto) para Números, etc. Qual tem sido o contexto no qual a Igreja da Reforma se baseia para interpretar as Escrituras? A cultura ocidental, sobretudo a helênica, ainda se faz muito presente no meio da Igreja da Reforma.

12. A Igreja Católica afirma ser a fiel depositária da Palavra da fé. A Bíblia afirma que “ao povo judeu foram confiados os oráculos de D’us” (Rm 9:4). E, afinal, a Igreja da Reforma não tem afirmado o mesmo?

13. Quanto ao relacionamento Igreja e Israel, os cristãos têm praticamente a mesma postura de indiferença quanto ao povo judeu. O conceito de que os judeus foram os assassinos de D’us (Deicídio), pensamento tão difundido na Igreja Católica durante os primórdios de sua fundação, ainda encontra espaço no meio da Igreja da Reforma. O amor a Israel, o comprometimento com sua salvação, bem como os investimentos feitos nos últimos séculos, têm sido insignificantes, se levarmos em conta os textos bíblicos que solicitam à Igreja interceder constantemente pela salvação do povo judeu, bem como ajudar os judeus (messiânicos) de Israel com bens materiais. Estes itens foram muito bem lembrados aos gentios crentes, pelo apóstolo Paulo (Rm15:27);

Poderíamos ainda citar mais e mais tópicos sobre a necessidade da Restauração nos moldes da Igreja do Primeiro Século. A reconciliação da Igreja com Israel, faz-se extremamente necessária nos dias atuais. Israel precisa ser salvo para que Yeshua volte para sua terra. Ele, o Messias, não voltará para implantar o Seu Reino em Nova York, ou em Paris ou mesmo em qualquer outra cidade do mundo. Ele voltará, cremos, em breve, para Jerusalém, conforme nos diz e confirma a Palavra em que cremos.

Meu intuito não é dividir mais a Igreja Cristã, ao escrever este artigo. Pelo contrário, meu desejo sincero é a nossa unidade. Não se trata também de ajuntar todas as denominações cristãs numa só, não! Mas, aquilo que nos une (o sangue do Cordeiro Yeshua, sua salvação e vida eterna) deveria falar mais alto do que nossas diferenças.

Afinal, conforme o Evangelho de João, Yeshua rogou para que nós fôssemos um, assim como Ele e o Pai também o são, a fim de que o mundo creia que Ele, o Messias, foi enviado por parte de D’us ( Jo 17:21). O Noivo espera ver sua “Noiva” num só Corpo e numa só família, judeus e gentios crentes (Ef 2:19). É tempo de restaurar. É tempo de voltar às nossas raízes. Se todo cristão possuísse a Torá como base de suas interpretações, com certeza teríamos menos divergências entre nós e, conseqüentemente, haveria mais unidade. Por isso, é tempo de reconciliar e declarar nossa unidade e as Boas Novas até aos confins da Terra (não esqueçam que a terra de Israel foi mencionada por Yeshua prioritariamente, em relação aos “confins” da Terra – At 1:8) para que nosso Messias venha em glória estabelecer o Seu Reino Milenar.

Maran Ata ! Seja breve sua Vinda, Senhor Yeshua Há Mashiach !

(*) Marcelo Miranda Guimarães, engenheiro industrial, MBA em economia e finanças pela FJV, teólogo, rabino messiânico ordenado pelo Instituto Netivyah de Jerusalém –Israel e pela UMJC.Fundador e presidente do Ministério Ensinando de Sião e da Congregação Har Tzion em Belo Horizonte-MG- www.ensinandodesiao.org.br e siao@ensinandodesiao.org.br