Hebraico Bíblico: Desfazendo os mitos da interpretação bíblica

Por diversas vezes fui questionado a respeito de dezenas ou centenas de interpretações aparentemente baseadas no Hebraico e que levam o público a aprender verdadeiras heresias que contaminam os crentes mundo a fora. Muitos destes erros procedem de mitos inseridos na teologia por pessoas consideradas autoridades em sua área, mas nosso desejo aqui é trazer um alerta e demonstrar a importância do conhecimento profundo do Hebraico Bíblico. Para isso, vou utilizar dois exemplos infelizes na interpretação um judáico e outro evangélico, um do passado e outro atual.

O primeiro caso desejo expôr aqui é o de Rashi, um dos rabinos mais considerados de todos os tempos no Judaísmo Rabínico. Rashi, o rabino francês Salomon Isaacides, que viveu entre os anos de 1040 e 1105, se tornou um dos mais renomados de todos os tempos no judaísmo medieval e é considerado até os dias de hoje como uma autoridade na interpretação do texto do Velho Testamento.

Rashi interpretou a palavra Shamaim שמים – Céus no livro de Gêneses como Sham – Maim – שם מים – Lá (tem) Água – Alegando que o contexto seria os versos a seguir que falam da separação de águas e águas, as que estavam em cima dos céus e as que estavam embaixo na terra. O problema deste tipo de análise é o achismo de Rashi, muito típico de todos os que não tem um conhecimento mais profundo das origens dos idiomas semíticos. Ora, nós sabemos pela crescente pesquisa de idiomas semíticos, que todos eles tiveram uma origem comum, a qual podemos chamar de Língua Semítica Mãe. A Língua Semítica Mãe de fato não pode ser provada e pode ser que nunca tenha existido, mas as inclinações verbais e a morfologia(modificações fonéticas) pela qual todos os idiomas semíticos do Oriente Próximo passaram, demonstram realmente terem uma relação comum.

O idioma mais próximo do Hebraico Bíblico é sem dúvida alguma o Aramaico Bíblico e em muitos casos eles compartilham da mesma raiz, como é o caso de palavras como Rei em Hebraico ser Melekh, em Aramaico é Malkha. Você em Hebraico é Ata e em Aramaico é Anta e assim por diante. Em ambos os casos, as raízes foram preservadas, sendo a de REI – MLK e a de você ATH, no caso do Hebraico a única coisa que ocorreu foi a queda de letras que deixaram de ser pronunciadas. Então, se analisarmos corretamente as raízes de Shamaim, chegaremos a conclusão, baseados na origem semítica que na realidade o certo seria SHM’A – de Shamaya e não de Sham – Maim SHM-MYM. Esta raiz é exatamente igual a do Aramaico – שמיא, sendo que a letra א caiu dando lugar a pluralidade típica do Hebraico para elementos desta natureza como Maya – Maim, Eloha – Elohim e etc. Rashi tinha muito boa vontade, mas não tinha os instrumentos de pesquisa e o conhecimento de outros idiomas semíticos como podemos ter nos dias de hoje. Sua interpretação de Sham – Maim – Lá Tem Água não passou de um mito que agradou um público imenso necessitado de suprir as curiosidades de seus ouvidos.

Um outro caso típico de interpretação (prefiro deixar no anonimato), somente alguns dias atrás fui solicitado para dar minha opinião sobre o que achava de uma interpretação de um líder de uma congregação messiânica no Brasil, algo que detesto fazer. Bom, mais uma vez fiquei surpreso com a facilidade que pessoas criam teologias de coisas que não existem. Desta vez, o alvo foi a relação entre duas palavras, que obviamente não existem no Hebraico: Guerrear(Lutar ou Combater) e Pão. Aparentemente há uma relação, mas uma análise mais profunda demonstrará que não passa de uma simples coincidência infeliz. Isto pode ocorrer em qualquer outro idioma. Por exemplo, pregador e pregador. Um é o que está no púlpito e outro é o que está no varal de roupas. O orador fez uso da aparente raiz comum LHM para interpretar que Lechem e Milhama tem a mesma origem quando tratava de uma parasha, um sermão semanal em sua Beit Tfilá, ao ouvir isso fiquei em choque, pois não imaginava quão distante de um contexto pode-se chegar. Basta uma busca rápida por qualquer ferramenta de Hebraico Strong para saber que Pão é o Strong H3899 e Guerrear é o Strong H3898. Infelizmente, este tipo de erro é muito comum, isto porque há falta de conhecimento, há falta de instrumentos e muitas vezes há falta de boa vontade para uma pesquisa mais profunda. Em toda a bíblia não há nenhum caso onde um(o pão) está relacionado contra o outro(a guerra). Se houvesse alguma semelhança poderia ser com o verbo combater, mas mesmo assim não há este tipo de relação.

Então o que aprendemos com isso? Bem, em primeiro lugar aprendemos que nem sempre conhecer as raízes é suficiente para sabermos interpretar. Em segundo lugar, precisamos aprender com os erros do passado e do presente, para não cometermos os mesmos. E em terceiro lugar, não confie cegamente em interpretações da Bíblia que não estão baseadas em pesquisa profunda e vivência profunda. Alguns podem conhecer as letras. Outros as técnicas. Mas alguns podem conhecer muito mais, pois seu conhecimento não vem dos homens, mas sim do Senhor. Estude Hebraico Bíblico. Aprofunde-se nas Escrituras Sagradas e tenha uma experiência pessoal com o verdadeiro autor da Bíblia, Adonai Tzvaot.

Saudações desde Sião.

Miguel Nicolaevsky

 

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