Acima: Fotografia de satélite de Tel Eton em Israel
Uma descoberta arqueológica de 2.700 anos pode lançar nova luz sobre a reforma religiosa do rei Ezequias
Uma pedra monumental de cerca de 750 quilos, deliberadamente escondida em um edifício administrativo na Sefelá de Judá (região de colinas baixas de Israel), está oferecendo aos pesquisadores uma visão rara sobre as práticas de culto no Reino de Judá no final do século VIII a.C. A descoberta, feita em Tel Eton, reforça as evidências de que a reforma religiosa atribuída ao rei Ezequias realmente ocorreu e afetou tanto os cultos centrais quanto os domésticos.
Índice
O contexto histórico: A reforma de Ezequias
De acordo com a Bíblia (principalmente em 2 Reis 18 e 2 Crônicas 29-31), o rei Ezequias, que reinou em Judá por volta de 727-698 a.C., promoveu uma grande reforma religiosa. Ele teria centralizado o culto no Templo de Jerusalém, destruído ou fechado altares e santuários locais espalhados pelo reino, combatido a idolatria e promovido uma purificação religiosa.
Por décadas, arqueólogos e historiadores debatem se essa reforma foi um evento histórico real ou uma narrativa posterior idealizada. A maioria das evidências anteriores vinha de sítios públicos, como o templo em Arad ou o altar em Beer-Sheva, onde foram encontrados sinais de desmantelamento de cultos locais. No entanto, esses achados são limitados e nem sempre conclusivos.
A descoberta em Tel Eton: “Casa do Governador”
O sítio de Tel Eton, identificado como um importante assentamento judaico da época do Primeiro Templo, vem sendo escavado há várias temporadas. Uma das estruturas mais impressionantes é o chamado “Casa do Governador” (ou Edifício 101), um grande e luxuoso edifício administrativo.
Dentro dele, os arqueólogos liderados pelo prof. Avraham Faust, da Universidade Bar-Ilan, encontraram uma estela (מצבה) de pedra de 1,4 metro de altura. Inicialmente, a pedra foi colocada em posição proeminente na sala maior do edifício, de frente para a entrada — um local visível para todos que entravam ou circulavam pelo pátio. Como não tinha função arquitetônica ou prática clara, os pesquisadores concluem que se tratava de um objeto de culto, comum no Oriente Médio antigo.
Anos depois, algo mudou. A estela foi cuidadosamente deitada de lado e incorporada a uma plataforma de pedras construída especialmente ao seu redor. Não há sinais de destruição intencional ou profanação (como quebrá-la em pedaços). Ao contrário, o tratamento parece respeitoso: os habitantes retiraram o objeto de uso, mas preservaram sua integridade física. Segundo o prof. Faust:
“Mesmo que o objetivo da reforma fosse anular o culto anterior, os moradores do local colaboraram com a mudança, mas o fizeram com respeito à tradição que existia havia gerações.”
Significado da descoberta
O que torna esse achado especialmente importante é que ele se refere ao culto doméstico ou palaciano, e não apenas a santuários públicos. Evidências desse tipo são raras na arqueologia porque objetos portáteis de culto geralmente eram removidos sem deixar traços claros. Aqui, a forma como a estela foi “desativada” — escondida mas não destruída — sugere uma transição controlada e intencional nos costumes religiosos.
A cronologia também se encaixa: a ocultação ocorreu antes da destruição do sítio pelos assírios no final do século VIII a.C., coincidindo com o período de Ezequias. Embora não seja possível provar uma ligação direta e exclusiva com a reforma do rei, o achado adiciona uma peça importante ao quebra-cabeça e fortalece a hipótese de que mudanças religiosas profundas realmente aconteceram em Judá nessa época, afetando diferentes níveis da sociedade.
E sucedeu que, no terceiro ano de Oseias, filho de Elá, rei de Israel, começou a reinar Ezequias, filho de Acaz, rei de Judá. Tinha vinte e cinco anos de idade quando começou a reinar, e vinte e nove anos reinou em Jerusalém; e era o nome de sua mãe Abi, filha de Zacarias. E fez o que era reto aos olhos do Senhor, conforme tudo o que fizera Davi, seu pai.
Ele tirou os altos, quebrou as estátuas, deitou abaixo os bosques, e fez em pedaços a serpente de metal que Moisés fizera; porquanto até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso, e lhe chamaram Neustã.
No Senhor Deus de Israel confiou, de maneira que depois dele não houve quem lhe fosse semelhante entre todos os reis de Judá, nem entre os que foram antes dele. Porque se chegou ao Senhor, não se apartou dele, e guardou os mandamentos que o Senhor tinha dado a Moisés. 2 Reis 18:1-5
Implicações maiores
Essa estela enterrada há mais de 2.700 anos não conta toda a história, mas oferece uma janela fascinante para um momento de transformação religiosa. Ela sugere que a reforma não foi apenas uma imposição de cima para baixo, mas envolveu a participação (e certa reverência) das próprias comunidades locais.
Pesquisas como essa continuam a enriquecer nosso entendimento da Bíblia como documento histórico, combinando textos antigos com evidências materiais do solo de Israel. O estudo do prof. Faust foi publicado no Jerusalem Journal of Archaeology e contribui para um debate acadêmico que permanece vivo e apaixonante.
A arqueologia bíblica segue revelando camadas cada vez mais complexas da história de Judá — e pedras como esta continuam a “falar” sobre um passado distante que ainda molda a identidade judaica e a compreensão do monoteísmo antigo.
