Nos últimos dias de julho de 2026, a enclave espanhola de Ceuta, no norte da África, viveu uma das maiores crises migratórias da sua história recente. Dezenas de milhares de pessoas — estimativas oficiais e locais apontam para cerca de 60 mil tentativas de entrada, com mais de 37 mil já devolvidas a Marrocos — atravessaram a fronteira a partir do território marroquino. Muitos o fizeram a nado ou forçando as vedações. Houve mortes (relatos falam em pelo menos 18). O primeiro-ministro Pedro Sánchez descreveu o episódio como uma “violação da soberania territorial espanhola” e uma ruptura da dinâmica de redução da imigração irregular. A Itália, sob Giorgia Meloni, reagiu com dureza, ameaçando ou iniciando a suspensão do Acordo de Schengen com a Espanha e reforçando controlos nas suas fronteiras.
Ceuta (e Melilla) não é território “africano ocupado” de forma recente. Trata-se de possessões espanholas seculares — Ceuta sob domínio português desde o século XV e depois espanhol de forma contínua há séculos —, integradas no Estado espanhol e reconhecidas como tal pela grande maioria da comunidade internacional. Marrocos, desde a sua independência, reivindica-as como “ocupadas”, comparando-as por vezes a Gibraltar. A maioria das análises jurídicas internacionais considera a pretensão marroquina fraca. No entanto, agora, vozes marroquinas e comentários oficiosos transformaram o discurso: o que os espanhóis chamam “infiltração ilegal” é apresentado por alguns em Marrocos como o regresso de “filhos da terra” a uma cidade sob “ocupação colonial espanhola”.
É aqui que a hipocrisia dos governantes espanhóis se torna gritante.
Durante anos, especialmente sob governos de esquerda e sob Pedro Sánchez, Madrid tem sido um dos governos ocidentais mais vocais na crítica a Israel. Acusou repetidamente o Estado judeu de “colonização”, de “apartheid”, de “genocídio” e de violar o direito internacional nos territórios disputados. Reconheceu o Estado da Palestina, impôs embargos de armas a Israel, retirou o embaixador, financiou agências ligadas à causa palestiniana e usou linguagem que equipara a presença israelita a um regime colonial de ocupação. Sánchez chegou a classificar medidas israelitas como “passo em direção ao apartheid”. Ao mesmo tempo, a Espanha mantém, sem qualquer intenção de negociação ou retirada, duas cidades europeias em solo africano continental, cercadas por Marrocos, com vedações, controlos de fronteira e reclamações permanentes de “ocupação” por parte do país vizinho.
A diferença de tratamento é gritante. Quando se trata de Israel — o único Estado judeu do mundo, nascido da autodeterminação de um povo ancestral na sua terra histórica após séculos de perseguição e após guerras de sobrevivência — a Espanha aplica o critério mais rigoroso de “descolonização” e “direito internacional”. Quando se trata das suas próprias enclaves, o mesmo critério desaparece. Ceuta e Melilla são “parte integrante da Espanha”. As reclamações marroquinas são ignoradas ou tratadas como ameaça à soberania. A ironia histórica é completa: o mesmo país que durante décadas apoiou, ou pelo menos relativizou, grupos islamistas como o Hamas e o Hezbollah (enquanto estes se dedicavam a atacar civis israelitas e a chamar à destruição de Israel), agora vê-se acusado pelos próprios marroquinos de ser o colonizador e o ocupante.
Não se trata de defender a política migratória de Sánchez nem de ignorar os legítimos interesses de segurança de qualquer país. Trata-se de apontar a incoerência moral e política. Quem acusa Israel de apartheid enquanto mantém território africano sob administração europeia, e quem apoia ou financia narrativas que deslegitimam a existência do Estado judeu, não pode depois indignar-se quando o mesmo discurso de “ocupação” e “colonização” é virado contra si.
As Escrituras bíblicas falam com clareza sobre a hipocrisia e sobre o tratamento dado a Israel. O princípio enunciado em Gênesis 12:3 permanece: “Abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem”. Nações e governantes que se levantam consistentemente contra o povo judeu e o seu Estado — relativizando o terrorismo, acusando de apartheid um país que concede direitos civis e políticos a minorias, e ao mesmo tempo ignorando as próprias contradições coloniais — não escapam ao padrão de julgamento que as Escrituras descrevem.
Jesus condenou a hipocrisia dos fariseus com palavras duras: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de iniquidade” (Mateus 23:25). E ainda: “Por que vês o argueiro no olho do teu irmão, e não reparas na trave que está no teu próprio olho?” (Mateus 7:3). O mesmo espírito de medida dupla que condena o outro enquanto se isenta a si próprio é o que se manifesta quando governantes europeus exigem de Israel padrões que não aplicam às suas próprias possessões históricas.
O livro de Joel e outros profetas anunciam juízos sobre as nações que dispersaram o povo de Israel e se apropriaram da sua herança. Não se trata de uma “teologia da substituição” nem de ódio a qualquer povo. Trata-se de reconhecer que a história tem padrões e que o antissemitismo — mesmo quando disfarçado de “antissionismo” ou de defesa dos direitos palestinianos — tem consequências. Décadas de alinhamento político com narrativas que deslegitimam Israel, de apoio a causas que incluem grupos dedicados à sua destruição, e de aplicação seletiva do direito internacional, encontram agora o seu espelho em Ceuta: o mesmo vocabulário de “ocupação” e “colonização” que Madrid usou contra Jerusalém é usado por Marrocos contra Madrid.
A crise de Ceuta não é apenas um problema migratório ou de fronteiras. É um momento de revelação. Revela a fragilidade das fronteiras europeias, a instrumentalização política da migração e, acima de tudo, a incoerência de quem se apresenta como defensor da justiça internacional enquanto pratica o que condena noutros. Que os governantes espanhóis olhem para Ceuta e reconheçam o que durante anos negaram ver em Israel. E que se lembrem das palavras das Escrituras: a medida com que medirem será usada para os medir.
