No dia 7 de outubro, enquanto o Hamas lançava o ataque que viria a ser lembrado como “a noite mais sombria” para Israel, o oficial de inteligência da Divisão de Gaza, tenente‑coronel Ary Ehr Amidram, encontrava‑se em uma posição privilegiada para perceber o que acontecia do outro lado da cerca. Segundo K., ex‑funcionário de inteligência que conhece pessoalmente Amidram, ele tinha acesso direto a informações críticas, mas acabou optando por minimizar a ameaça. A narrativa que se desenrola nos relatos colhidos pelo *Israel Hayom* revela que, apesar de alertas concretos – como a ativação de cartões SIM usados pelos combatentes de elite Nukhba do Hamas – o tenente‑coronel insistiu que “não havia motivo para alarme”, mantendo‑se calmo e desencorajando qualquer ação preventiva.
A postura de Amidram não foi um caso isolado. O clima de complacência percorria os altos escalões políticos e militares, que priorizavam a manutenção de “silêncio” ao longo da fronteira de Gaza. Por volta das cinco da manhã, o comandante do Comando Sul, major‑general Yaron Finkelman, conversou com Amidram e com o comandante da Divisão de Gaza, brigadier‑general Avi Rosenfeld, solicitando reforço da prontidão após receber informações sobre a ativação dos SIMs. Ambos responderam que estavam “completamente calmos”, ecoando a estratégia de não gerar pânico.
A origem de Amidram ajuda a entender parte de seu comportamento. Ele é filho do major‑general aposentado Yaakov Amidram, que liderou a Diretoria de Inteligência Militar (Mossad) e serviu como conselheiro de segurança nacional. Criado no programa de excelência Havatzalot, destinado a formar os melhores oficiais de inteligência, Ary Ehr seguiu a trilha ideal: formou‑se em Havatzalot, ingressou na Divisão de Pesquisa, atuou em campo e já servia na Divisão de Gaza durante a Operação “Margem Protetora” em 2014. Em 2023, assumiu o cargo de oficial de inteligência da Divisão de Gaza, trazendo consigo um currículo impecável “no papel”.
Entretanto, a reputação profissional não se traduziu em consenso interno. Subordinados descrevem Amidram como arrogante e pouco receptivo a opiniões divergentes. Essa atitude, segundo fontes, teria limitado a troca de informações críticas e enfraquecido a capacidade de reação rápida. Quando o ataque começou, a falta de alerta precoce – em parte atribuída à postura de Amidram – impediu que as forças de defesa israelenses se preparassem adequadamente, contribuindo para a magnitude do desastre.
As implicações desse episódio são profundas. Primeiro, ele expõe fragilidades no processo de avaliação de risco dentro das estruturas de inteligência, onde a confiança excessiva em avaliações de poucos oficiais pode silenciar alertas essenciais. Segundo, evidencia o perigo de uma cultura organizacional que privilegia a manutenção de aparências tranquilas sobre a prontidão real, sobretudo em fronteiras voláteis como a de Gaza. Por fim, o caso pode desencadear uma revisão de protocolos de comunicação entre comandantes de alto nível e unidades de campo, bem como um escrutínio mais rigoroso sobre a nomeação de oficiais com histórico de comportamento autoritário.
Em síntese, a história de Ary Ehr Amidram ilustra como a combinação de pedigree prestigioso, carreira exemplar e, simultaneamente, falhas de liderança pessoal pode culminar em graves consequências estratégicas. O ataque de 7 de outubro serve de alerta para que o estabelecimento de segurança de Israel reavalie seus mecanismos de alerta e garanta que a voz da cautela não seja abafada por conveniências políticas ou por apegos a hierarquias familiares.
📖 Perspectiva Bíblica
“Portanto, vigiai, porque não sabeis a que hora virá o vosso Senhor.” (Mateus 25:13)
Fonte original: Aryeh Amidror, the man who failed to sound the alarm — Israel Hayom
