Três anos depois do ataque de 7 de outubro, Israel ainda não definiu onde e como será erigido o memorial nacional que deverá preservar a memória da tragédia. Enquanto algumas das comunidades devastadas já voltaram a ocupar suas casas e outras se preparam para o retorno, o planejamento do sítio commemorativo ainda não começou. O impasse se arrasta entre o Ministério da Herança e a KKL‑JNF (Judeus Nacionais para a Terra de Israel), entre a necessidade de conservar as evidências do ataque e o desejo das famílias de retomar a vida cotidiana. As discussões já se manifestam no terreno: em Kfar Aza o foco está no bairro Dor Tza’ir, construído para famílias jovens e quase totalmente destruído; em Be’eri as autoridades já decidiram preservar apenas uma “casa‑testemunho”; em Nir Oz ainda não há consenso.
A controvérsia vai além da escolha de quais casas ou objetos serão mantidos como vestígios. Ela levanta questões fundamentais sobre quem terá autoridade para contar a história, quais elementos serão preservados e como a memória local se transformará em legado nacional. Em setembro de 2024 o governo aprovou uma decisão que deveria acelerar a criação de uma corporação e de um local de memória nacional, depois de anos em que ministérios, a Administração Tekuma (responsável pela reconstrução das comunidades na fronteira de Gaza), autoridades municipais, entidades públicas e famílias comemoravam o dia de forma fragmentada, sem clareza sobre responsabilidades.
Em julho de 2026, a Knesset promulgou uma lei específica para comemorar o massacre e o heroísmo de 7 de outubro, estabelecendo a infraestrutura para uma autoridade nacional de memória, um sítio, um museu, um arquivo e um banco de dados de informações no oeste do Negev. No processo legislativo, Noa David‑Biton, diretora de relações governamentais da Atid LaOtef – organização que representa as comunidades da fronteira de Gaza – insistiu na inclusão das vozes dos moradores. A entidade realizou uma pesquisa com mais de 1.300 participantes, investigando percepções sobre memória e comemoração, e afirmou que a lei trata o tema de forma macro, mas que a participação comunitária deve ir além das discussões parlamentares.
Em Kfar Aza, o debate sobre o bairro Dor Tza’ir ilustra o dilema entre preservação e reconstrução. As casas permanecem como provas irremovíveis do ataque, mas os sobreviventes precisam de um ambiente habitável, não de um “ponto turístico” permanente. Após intensas conversas envolvendo familiares enlutados e ex‑cativos, 69 % dos eleitores apoiaram a proposta de realocar parcialmente as casas‑testemunho para um terreno adjacente e construir um centro memorial fora da área residencial. Ainda assim, o pleito gerou forte polarização, refletindo o peso emocional e simbólico da decisão.
A ausência de um plano concreto tem implicações políticas e sociais. A falta de definição pode prolongar o sofrimento das vítimas, dificultar a consolidação de um relato histórico unificado e abrir espaço para disputas de poder entre instituições governamentais e organizações civis. Além disso, a forma como o memorial será concebido influenciará a narrativa nacional sobre o terrorismo de 7 de outubro, podendo reforçar a identidade de resistência ou, se mal conduzido, gerar ressentimentos internos. O desafio agora é equilibrar a necessidade de honrar as vítimas e preservar a verdade factual com o direito das comunidades de reconstruir suas vidas, garantindo que a memória coletiva sirva tanto à história quanto à esperança de um futuro mais seguro.
📖 Perspectiva Bíblica
“Não te esqueças daquilo que os teus olhos viram, nem do que o teu coração ouviu.” (Deuteronômio 4:9)
Fonte original: Three years after October 7, Israel still has no national memorial — Israel Hayom
