A descoberta de uma pequena tábua de calcário nas redondezas de Hebron trouxe à luz um dos mais antigos vestígios extrabíblicos do Reino de Judá, datado do século VIII a.C., período do Primeiro Templo. A inscrição, escrita em hebraico, contém uma maldição dirigida a um homem chamado Hagaf, filho de Hagav: “Maldito seja Hagaf, filho de Hagav, por Yahweh Sabaot”. Essa frase representa a primeira referência conhecida fora da Bíblia ao título divino “Senhor dos Exércitos” (Yahweh Sabaot), indicando que já naquela época os judeus utilizavam uma designação que evoca um Deus que lidera as forças celestiais e combate ao lado do seu povo.
Embora nada se saiba sobre a identidade de Hagaf ou o motivo que lhe valeu tal condenação, o artefato revela aspectos cruciais da linguagem religiosa e da mentalidade militar do Judá antigo. O uso do termo “Sabaot” demonstra que a ideia de um Deus guerreiro, comandante das hostes celestiais, já era parte integrante da teologia local, muito antes dos textos proféticos que seriam compilados posteriormente. Essa constatação reforça a continuidade entre as práticas cultuais do período monárquico e as formulações teológicas que apareceriam nos livros dos profetas, como Isaías, que menciona o “Senhor dos Exércitos” defendendo Jerusalém.
A tábua agora integra a exposição “Six After the War”, no Museu das Terras Bíblicas, em Jerusalém, que reúne objetos que dialogam com a temática das guerras antigas e suas repercussões. Entre as peças expostas está uma inscrição do rei assírio Senaqueribe, que se gaba da devastação de Judá, contraposta à profecia de Isaías que promete a proteção divina. Também são exibidos um relevo assírio que retrata exilados judeus – confiscado pelos nazistas e devolvido à comunidade judaica –, uma estátua de Ramsés II, e uma reconstrução da Batalha de Kadesh.
Outros itens ressaltam momentos de reconciliação e paz. Um exemplar de espada dobrada, cujo modelo foi presenteado pelo então primeiro‑ministro israelense Menachem Begin ao presidente egípcio Anwar Sadat durante a assinatura do tratado de paz de 1979, simboliza a transição de conflito para diplomacia. Há ainda uma réplica do Escudo de Aquiles, fotografias de uma mostra pop‑up do artista Assi Meshullam inspirada nos relevos de Lachish, moedas romanas que representam a deusa Pax com ramos de oliveira, um bastão alado que sinalizava a abertura de negociações e uma coroa de oliveira dourada do século III a.C., associada à trégua olímpica.
A curadora‑executiva do museu, Dra. Risa Levitt, enfatiza que as guerras antigas carregam lições surpreendentemente atuais, pois revelam narrativas concorrentes, estratégias de engano e, simultaneamente, possibilidades de esperança. O fato de um simples fragmento de pedra revelar um título divino tão significativo demonstra como pequenos vestígios arqueológicos podem ampliar nossa compreensão da identidade nacional e religiosa de Judá, bem como das raízes históricas que sustentam o atual Estado de Israel. A exposição, ao conectar passado e presente, convida o público a refletir sobre como os conflitos e as tentativas de paz de milênios atrás ainda ecoam nas dinâmicas geopolíticas contemporâneas.
📖 Perspectiva Bíblica
“Porque eu bem sei os pensamentos que penso de vós, diz o Senhor; pensamentos de paz e não de mal.” (Jeremias 29:11)
Fonte original: 2,800-year-old curse reveals surprising detail about Kingdom of Judah — Israel Hayom
