À medida que o número de sobreviventes do Holocausto diminui, Gidon Ariel, fundador da organização sem fins lucrativos Root Source, tem se dedicado a preservar suas memórias antes que desapareçam. A Root Source nasceu com o objetivo de aproximar cristãos pró‑Israel e judeus por meio de aprendizado conjunto e diálogo inter-religioso. Recentemente, a entidade lançou o projeto “We Must Not Forget” (Não Podemos Esquecer), que pretende publicar em inglês as histórias de vida de cem sobreviventes do Holocausto, incluindo relatos que nunca chegaram ao grande público e que, de outra forma, poderiam se perder para a história.
O ponto de partida foi o encontro de Ariel com o rabino Eliyahu Dermer, então com 95 anos. Dermer, que sobreviveu ao genocídio nazista, reconstruiu sua existência em Israel e se tornou uma figura respeitada no mundo religioso. Quando Ariel o procurou, o rabino ofereceu duas opções: responder oralmente às perguntas ou mostrar um manuscrito que havia escrito há anos sobre sua trajetória. Dermer então tirou de uma gaveta um documento mecanografado, sem fotos e jamais publicado, redigido em hebraico. “O que fazer com 99 % do mundo que não entende hebraico?” questionou Ariel, que já tinha experiência em traduzir e publicar obras em inglês.
A partir daí, Ariel assumiu a tarefa de transformar o manuscrito em um livro profissional, resultando em *Through Faith and Fire: The Life of Rabbi Eliyahu Dermer*, lançado em 2025. O rabino chegou a ver sua história impressa, mas faleceu um mês depois da publicação. Essa experiência marcou profundamente Ariel, que percebeu que muitas outras narrativas ainda estavam à beira do esquecimento. “Em hebraico dizemos que não se pode terminar o trabalho, mas também não se pode ficar parado”, afirmou ele, lançando as bases do “We Must Not Forget”.
O objetivo do projeto é ambicioso: publicar cem histórias em inglês, sendo o primeiro livro já totalmente financiado e cerca de vinte relatos em diferentes fases de produção. Ariel busca tanto sobreviventes ainda vivos – embora reconheça que, fora os centenários, a maioria já era criança durante a guerra – quanto manuscritos deixados por aqueles que já faleceram, muitos dos quais podem estar guardados em armários familiares ou publicados apenas em hebraico.
A iniciativa tem também um caráter pessoal. O próprio pai de Ariel sobreviveu ao Holocausto na Hungria e teve seu depoimento gravado pela USC Shoah Foundation. Essa ligação familiar reforça a urgência de registrar testemunhos que ainda não foram documentados ou que permanecem inacessíveis ao público global. Ariel alerta que, sem esforços coordenados, milhares de vozes correm o risco de se apagar, privando as gerações futuras de compreender a dimensão humana do genocídio.
As possíveis implicações do projeto são múltiplas. Primeiro, ao disponibilizar essas histórias em inglês, amplia‑se o alcance educacional, permitindo que escolas, universidades e o público em geral ao redor do mundo tenham acesso direto a relatos autênticos, contribuindo para combater o negacionismo e o revisionismo histórico. Segundo, a publicação pode servir de modelo para outras iniciativas de preservação de memória em diferentes contextos de genocídio, mostrando como a colaboração entre comunidades religiosas pode gerar resultados concretos. Por fim, ao envolver cristãos pró‑Israel e judeus num esforço conjunto, o projeto reforça laços de solidariedade e entendimento mútuo, demonstrando que a lembrança do passado pode ser um ponto de união para futuros diálogos de paz e respeito.
📖 Perspectiva Bíblica
“Não te esqueças de nada do que te ordenei” (Deuteronômio 4:9)
Fonte original: We must not forget: 'So that they will not have died twice' — Israel Hayom
