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A França em uma crise histórica e a relação com o ódio aos Judeus

Quando a perseguição aos judeus volta a ganhar espaço, Israel se transforma em alvo de hostilidade internacional e os valores de uma nação são colocados à prova, a história e as Escrituras nos convidam a refletir sobre as consequências morais, políticas e espirituais dessas escolhas.

A França, uma das nações mais influentes da Europa e um país profundamente marcado pela história do judaísmo europeu, enfrenta um momento que exige atenção muito além de suas fronteiras. A violência nas ruas, a polarização política, as tensões relacionadas à imigração, o crescimento do antissemitismo e o agravamento das divergências diplomáticas com Israel colocam uma questão fundamental: até que ponto uma república consegue preservar seus valores quando suas próprias instituições parecem incapazes de construir um consenso sobre os princípios que a sustentam?

Uma reportagem publicada pelo jornal israelense Ynet descreve cenas de destruição em cidades francesas, com estabelecimentos saqueados, edifícios públicos incendiados, confrontos com a polícia e ataques que provocaram profunda indignação. O texto também registra a disputa entre lideranças políticas sobre as causas da violência e a responsabilidade do governo, da oposição e dos movimentos que participaram das manifestações.

Esses acontecimentos não devem ser tratados como episódios isolados de desordem urbana. Eles revelam a gravidade de uma crise de confiança nas instituições e levantam perguntas sobre integração social, segurança pública, liberdade de expressão e os limites da tolerância diante da violência.

Entretanto, existe uma dimensão adicional que merece atenção especial: a maneira como a sociedade francesa e suas lideranças políticas lidam com Israel, com o povo judeu e com manifestações de hostilidade que podem ultrapassar os limites do debate político legítimo.

Para compreender essa crise, é necessário examinar os fatos com seriedade, sem confundir críticas políticas a um governo com perseguição religiosa ou étnica, mas também sem ignorar quando a linguagem política contribui para normalizar o preconceito contra os judeus.

O antissemitismo francês não pode ser tratado como um problema secundário

Os números oficiais ajudam a compreender a gravidade da situação. Segundo o Ministério do Interior francês, foram registrados 1.320 atos antissemitas em 2025. Embora o número represente uma queda de 16% em relação a 2024, o próprio governo francês reconhece que os registros permanecem em níveis historicamente elevados, especialmente desde os ataques terroristas de 7 de outubro de 2023.

Esse dado precisa ser considerado em toda a sua dimensão. A França abriga a maior comunidade judaica da Europa, e a segurança dos judeus franceses não é uma questão exclusivamente israelense: é uma responsabilidade fundamental da própria República Francesa.

Quando um judeu é agredido por causa de sua identidade, quando uma sinagoga precisa de proteção policial permanente ou quando cidadãos judeus passam a esconder símbolos religiosos por medo de ataques, a liberdade prometida pela República está sendo colocada em xeque.

O mesmo princípio deve valer para qualquer comunidade religiosa. O governo francês também registrou 326 atos antimuçulmanos em 2025, um aumento de 88% em relação ao ano anterior.

Uma sociedade democrática não combate uma forma de intolerância alimentando outra. Ela protege os cidadãos e responsabiliza os agressores, independentemente de sua origem ou religião.

Entretanto, é preciso reconhecer uma realidade incômoda: o antissemitismo pode reaparecer sob diferentes justificativas políticas. Às vezes, manifesta-se pela antiga acusação de que os judeus controlam os acontecimentos mundiais; em outras ocasiões, surge na forma de ameaças a judeus franceses por decisões tomadas pelo governo israelense, como se todos os judeus fossem responsáveis pelas ações de um Estado.

Criticar o governo de Israel é legítimo. Questionar decisões militares, negociar sanções ou defender uma solução diplomática também pode fazer parte do debate internacional. O problema começa quando essa crítica se transforma em hostilidade contra judeus, negação do direito de existência de Israel ou tolerância diante de ameaças e ataques contra comunidades judaicas.

A diferença entre crítica política e antissemitismo não pode ser apagada. Mas tampouco pode ser usada como desculpa para ignorar o antissemitismo quando ele efetivamente ocorre.

Israel no centro de uma disputa política europeia

A postura do governo francês em relação a Israel tornou-se progressivamente mais confrontadora em determinadas áreas. Entre as medidas adotadas estão restrições relacionadas à cooperação militar e sanções direcionadas a indivíduos ligados à violência contra palestinos na Cisjordânia.

Em agosto de 2026, o ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, justificou as sanções contra o ministro israelense Itamar Ben-Gvir com base em declarações consideradas inaceitáveis e na violência de colonos contra palestinos. A França também havia anunciado, em maio, a proibição da entrada de Ben-Gvir em seu território.

É necessário descrever essas medidas com precisão: elas não equivalem, por si mesmas, a sanções contra todos os cidadãos israelenses, nem demonstram automaticamente que o governo francês esteja promovendo o antissemitismo. O próprio governo francês condenou publicamente o massacre cometido pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 e recordou as vítimas francesas daquele ataque durante uma visita a Israel em outubro de 2026.

Ainda assim, existe uma questão política legítima a ser debatida: até que ponto a pressão diplomática exercida sobre Israel contribui para a segurança e a paz, e em que momento pode produzir isolamento, radicalização e novos incentivos para a hostilidade contra os judeus?

Sanções direcionadas a responsáveis por atos específicos devem ser avaliadas à luz de seus fundamentos, da proporcionalidade e da consistência com os critérios aplicados a outros países. Quando governos parecem aplicar padrões diferentes a Israel e a outros atores envolvidos em conflitos, é compreensível que surjam questionamentos sobre a coerência de sua política externa.

Mas a resposta a essa questão precisa ser sustentada por evidências. Não é correto concluir que toda sanção contra um dirigente israelense seja uma manifestação de ódio aos judeus. Tampouco seria correto ignorar a possibilidade de que discursos políticos, boicotes indiscriminados e campanhas que responsabilizam coletivamente os judeus possam contribuir para a normalização do antissemitismo.

A defesa de Israel não exige que abandonemos a análise crítica. Exige que a análise seja justa, consistente e consciente da realidade histórica do povo judeu.

Imigração, integração e a ameaça do extremismo islamista

Outro tema incontornável é a política migratória francesa.

Durante décadas, a França recebeu imigrantes de diversas regiões do mundo, incluindo países do Norte da África e do Oriente Médio. Muitos construíram suas vidas no país, trabalharam, constituíram famílias e se tornaram cidadãos comprometidos com a sociedade francesa. Não há fundamento para tratar essas populações, em conjunto, como inimigas da República.

Entretanto, uma política migratória responsável precisa enfrentar questões concretas: integração social, respeito às leis, combate à radicalização religiosa, controle de fronteiras, segurança e prevenção do terrorismo.

O extremismo islamista não é uma invenção retórica. Organizações jihadistas e redes terroristas representam uma ameaça real, e a Europa conhece as consequências de atentados inspirados por essas ideologias. A liberdade religiosa não obriga uma democracia a tolerar movimentos que defendem a violência, perseguem minorias ou procuram destruir suas instituições.

A reportagem do Ynet sobre os recentes distúrbios franceses descreve ataques a edifícios públicos, saques, incêndios e confrontos com a polícia. Registra também a presença de uma bandeira palestina em um dos episódios de destruição.

Esse detalhe merece atenção, mas também exige cautela. A presença de uma bandeira palestina em uma manifestação violenta não comprova, por si só, que os responsáveis sejam palestinos, membros de uma organização jihadista ou representantes da população muçulmana francesa. Para estabelecer essas conexões, seriam necessárias evidências específicas sobre os envolvidos e suas motivações.

A discussão sobre imigração palestina e sobre a entrada de pessoas provenientes de regiões afetadas por conflitos deve seguir o mesmo princípio. Acolher refugiados não significa necessariamente importar terroristas, assim como a origem estrangeira de um indivíduo não constitui prova de radicalização. O Estado, porém, tem a obrigação de avaliar riscos de segurança, investigar vínculos com organizações terroristas e impedir que o sistema de acolhimento seja explorado por agentes violentos.

O que precisa ser questionado é qualquer política que coloque o ideal de acolhimento acima de todas as demais responsabilidades do Estado, como se a compaixão pudesse dispensar critérios de segurança e integração. A generosidade de uma sociedade não deve exigir que seus cidadãos vivam sob o medo.

A República Francesa enfrenta, portanto, um desafio duplo: combater o extremismo sem transformar imigrantes em bodes expiatórios e preservar a liberdade religiosa sem permitir que ela seja usada como cobertura para projetos de violência política.

Quando a República perde a capacidade de impor suas próprias regras

As imagens divulgadas pelos meios de comunicação são perturbadoras: lojas saqueadas, edifícios históricos incendiados, serviços públicos destruídos e policiais enfrentando grupos violentos. A reportagem relata ainda a disputa entre o primeiro-ministro Sébastien Lecornu e o líder da esquerda radical Jean-Luc Mélenchon sobre a responsabilidade pelos acontecimentos.

Essas cenas mostram como a violência pode se transformar em instrumento de pressão política quando o Estado perde a capacidade de preservar a ordem ou quando parte da sociedade passa a considerar legítimo destruir aquilo que não consegue conquistar pelo debate democrático.

A questão fundamental não é a origem étnica dos participantes, mas o comportamento de quem ataca cidadãos, destrói patrimônio público e desafia as instituições. Uma república não pode selecionar quais atos de violência condena de acordo com a identidade política de quem os pratica.

Se a destruição de uma biblioteca, de uma prefeitura ou de um estabelecimento comercial for relativizada porque os responsáveis afirmam estar lutando por uma causa social, o Estado de Direito estará sendo enfraquecido. O mesmo vale para a perseguição de judeus, a intimidação de muçulmanos, a violência contra cristãos ou os ataques motivados por ideologias extremistas.

A República Francesa não está necessariamente condenada ao desaparecimento. Mas sua sobrevivência como democracia estável depende da capacidade de preservar suas instituições, fazer cumprir suas leis e manter um princípio elementar: ninguém está acima da lei, e nenhuma causa política justifica a violência contra inocentes.

A verdadeira ameaça à França não pode ser atribuída indistintamente a uma religião ou a uma população inteira. Ela está na combinação de extremismo, polarização, erosão da confiança institucional, impunidade e incapacidade de estabelecer limites claros para a violência.

A dimensão espiritual: a promessa feita a Abraão

É nesse ponto que a reflexão deixa de ser apenas política e histórica e passa a tocar uma questão central para a compreensão bíblica da história.

Em Gênesis 12:1-3, o Eterno chama Abraão para sair de sua terra e seguir em direção à terra que lhe seria mostrada. A promessa culmina em palavras que atravessariam gerações:

“Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem.” — Gênesis 12:3

Essa declaração não pode ser reduzida a uma fórmula de prosperidade individual. Ela aparece no contexto da eleição de Abraão e da promessa de que, por meio dele, todas as famílias da terra seriam abençoadas.

Na perspectiva bíblica, a eleição de Israel está associada a um propósito que ultrapassa suas próprias fronteiras. O povo chamado por Deus ocupa um lugar singular na história da aliança, e as Escrituras apresentam repetidamente as relações das nações com Israel como um assunto de relevância moral e espiritual.

É por isso que, para quem lê a história à luz da Bíblia, o tratamento dispensado ao povo judeu não é um tema indiferente. A memória do antissemitismo europeu, culminando na Shoah, demonstra até onde o desprezo pelos judeus pode conduzir uma sociedade quando o preconceito se transforma em ideologia de Estado.

Entretanto, é importante compreender a promessa de Gênesis em seu contexto. O texto não autoriza concluir que cada decisão diplomática desfavorável a Israel provoque automaticamente uma punição divina, nem permite afirmar que toda crise enfrentada por uma nação seja consequência direta de sua política em relação aos judeus.

O princípio bíblico é mais profundo do que uma relação mecânica de causa e efeito.

A advertência é que as nações não devem tratar com desprezo aquilo que Deus separou para um propósito, nem transformar a hostilidade contra o povo judeu em instrumento de mobilização política. Da mesma forma, a eleição bíblica não oferece licença para injustiças contra outros povos. O Deus de Israel também exige justiça, responsabilidade e respeito pela vida humana.

A própria tradição profética de Israel insiste que a aliança não elimina a responsabilidade moral. Ser escolhido não significa estar dispensado do juízo, e ser uma nação não significa possuir autorização para agir sem limites.

Portanto, a defesa bíblica de Israel não deve se fundamentar no ódio aos palestinos, aos muçulmanos ou aos franceses. Deve fundamentar-se na fidelidade às Escrituras, na defesa da vida, na rejeição do antissemitismo e no reconhecimento do lugar singular de Israel na narrativa bíblica.

O preço espiritual de se levantar contra Israel

Há uma convicção que atravessa a leitura bíblica da história: as decisões das nações não possuem apenas consequências econômicas e diplomáticas. Elas também revelam valores, prioridades e disposições morais.

Quando uma sociedade normaliza o ódio contra os judeus, tolera a intimidação religiosa ou transforma a destruição de Israel em objetivo político, ela compromete princípios fundamentais de justiça e convivência. Mesmo quando seus dirigentes acreditam estar agindo em nome de uma causa nobre, precisam responder pelos efeitos de suas palavras e decisões.

A promessa a Abraão nos convida a perguntar que tipo de relação as nações desejam estabelecer com o povo por meio do qual, segundo as Escrituras, a bênção alcançaria todas as famílias da terra.

Não precisamos afirmar que toda dificuldade econômica, crise política ou episódio de violência na França seja uma punição divina para reconhecer a seriedade da advertência bíblica. A prudência teológica não enfraquece a mensagem; impede que a transformemos em uma acusação simplista que o próprio texto não exige.

O perigo espiritual está em permitir que a hostilidade se converta em princípio de governo, que o preconceito seja apresentado como virtude e que a perseguição a um povo seja justificada como instrumento de justiça.

É nesse sentido que a promessa de Gênesis continua relevante. Ela recorda às nações que suas escolhas têm peso moral e que o tratamento dispensado a Israel não deve ser separado da responsabilidade de agir com justiça diante de Deus.

A França ainda pode escolher outro caminho

A crise francesa não deve ser observada com satisfação, como se a fragilidade de uma nação europeia fosse uma vitória para Israel. Um país mergulhado em violência, conflitos internos e radicalização não se torna automaticamente um aliado mais fraco ou um adversário condenado. O sofrimento dos franceses não é motivo de celebração.

O que está em jogo é a possibilidade de a França recuperar a confiança em suas instituições, proteger suas comunidades judaicas, combater o extremismo, estabelecer uma política migratória responsável e conduzir suas relações com Israel sem permitir que o debate político se transforme em perseguição coletiva.

Os líderes franceses precisam compreender que suas palavras têm consequências. Se condenam o antissemitismo, devem fazê-lo de maneira consistente, inclusive quando ele surge em movimentos políticos com os quais compartilham determinadas posições. Se defendem os direitos dos palestinos, devem também rejeitar o terrorismo e o discurso que nega a existência de Israel. Se defendem a imigração, precisam garantir que acolhimento e segurança caminhem juntos. E, se defendem a República, devem exigir que todos respeitem suas leis.

O mesmo padrão de responsabilidade deve ser aplicado a Israel, aos seus dirigentes e aos seus cidadãos. Defender o direito de existência de Israel não significa ignorar atos de violência ou dispensar qualquer governo de prestar contas por suas decisões.

A coerência é indispensável para que a defesa dos judeus não se transforme em mera ferramenta de disputa partidária.

A França está diante de escolhas que podem influenciar profundamente seu futuro. O caminho da radicalização, da impunidade e do antagonismo religioso ameaça a coesão social. O caminho da justiça, da responsabilidade e da proteção das minorias oferece uma possibilidade de reconstrução.

Para aqueles que leem a história à luz das Escrituras, permanece a advertência de Gênesis 12:3: a relação das nações com o povo de Abraão não é um assunto trivial. Ela deve ser examinada com seriedade, temor de Deus e consciência moral.

Não cabe a nós decretar o juízo divino sobre a França. Cabe-nos, porém, reconhecer os sinais de uma sociedade em crise, denunciar o antissemitismo onde quer que apareça e recordar que nenhuma nação se fortalece quando transforma um povo inteiro em inimigo.

A França ainda tem a oportunidade de defender seus valores republicanos, proteger seus cidadãos judeus e construir uma política externa capaz de distinguir a crítica legítima da hostilidade contra Israel. Essa escolha não é apenas estratégica. É também moral.

E a pergunta que permanece, diante das ruas incendiadas, das comunidades ameaçadas e da crescente polarização política, é esta: as nações aprenderão com a história antes que o preço de suas escolhas se torne ainda mais elevado?

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