Um influente comentarista político dos Emirados Árabes Unidos manifestou forte oposição ao acordo nuclear que está prestes a ser assinado entre Washington e Teerã, questionando a confiança depositada pelo presidente americano Donald Trump no regime iraniano.
Amjad Taha, analista sênior baseado em Abu Dhabi e com mais de 681 mil seguidores na rede social X (antigo Twitter), publicou uma crítica dura nesta quarta-feira (17 de junho de 2026). “De 8,3 bilhões de pessoas que vivem no planeta, parece que apenas duas confiam no Irã: Trump e J.D. Vance”, escreveu ele.
Falhas apontadas no acordo
Segundo Taha, o entendimento prevê que o Irã se comprometa a não avançar em seu programa nuclear por apenas 60 dias, sem qualquer mecanismo de verificação eficaz. O texto também não menciona os mísseis balísticos iranianos nem os grupos proxy (como o Hezbollah, os houthis e outras milícias pró-Irã) que atuam no Oriente Médio.
Em contrapartida, o Irã receberia alívio significativo das sanções, liberação de ativos congelados, permissão para vender petróleo, fim do bloqueio marítimo e, possivelmente, centenas de bilhões de dólares. “O presidente Trump diz que conseguiu tudo. Será mesmo que conseguiu tudo? Ou o Irã recebeu mais um pagamento para prometer coisas?”, questionou o comentarista.
Crítica à estratégia síria
Taha também rebateu declarações da equipe de Trump sobre a capacidade da Síria de derrotar o Hezbollah. Ele lembrou que Damasco lutou contra o grupo libanês por 12 anos sem sucesso. Apenas após ataques aéreos israelenses que destruíram infraestrutura do Hezbollah em Damasco e garantiram superioridade aérea é que o regime de Bashar al-Assad caiu, em 8 de dezembro de 2024.
“Se o objetivo é desmantelar o Hezbollah, a Síria e Israel precisam trabalhar juntos, e não trocar um poder por outro. E se essa é a meta, talvez não seja uma boa ideia fazer um acordo com o regime islâmico iraniano — o mesmo que patrocina o Hezbollah”, argumentou.
Posição oficial dos Emirados
Apesar da crítica contundente de Taha, a posição oficial de Abu Dhabi é mais cautelosa e diplomática. Os Emirados Árabes Unidos emitiram nota enfatizando a importância do diálogo, da diplomacia e do respeito ao direito internacional para fortalecer a segurança e a estabilidade regional.
O Ministério das Relações Exteriores destacou a necessidade de compromisso pleno com os termos do acordo, fim imediato das ações hostis, respeito à soberania dos Estados, liberdade de navegação (especialmente no Estreito de Ormuz) e continuidade das negociações para resultados duradouros. O país reafirmou apoio a esforços que promovam diálogo e estabilidade no Oriente Médio.
Contexto regional
A crítica de Amjad Taha reflete preocupações mais amplas entre aliados sunitas do Golfo Pérsico em relação a qualquer acomodação com o Irã xiita, que historicamente é visto como ameaça à estabilidade da região. Os Emirados, que mantêm relações pragmáticas mas cautelosas com Teerã, temem que o alívio de sanções fortaleça o regime dos aiatolás e seus aliados sem garantias reais de desarmamento.
O episódio ilustra as tensões internas no campo pró-ocidental diante da diplomacia Trump com o Irã: de um lado, a busca por acordos que evitem conflitos diretos; de outro, o ceticismo profundo de países árabes que convivem diariamente com a influência iraniana.
