Dois sonhos, duas interpretações orgânicas!

pelo Rav J. Pietro B. Nardella-Dellova
Da Sinagoga Sêh HaElohim-Scuola

Prezada chaverá, Salve!

Após receber seu e-mail, li, atentamente, a narrativa/descrição dos seus dois sonhos, fiz uma abordagem e propús as interpretações.

Passo, abaixo, a análise e interpretações dos seus sonhos. Espero que lhe sirva de crescimento e amadurecimento.

O PRIMEIRO SONHO

Caro Rav Dellova, Esta noite tive um sonho muito estranho. Dificilmente lembro meus sonhos. Acordei com uma voz que me disse: Lembre-se do sonho! E nesse instante lembrei. Eu estava em um edifício que não sei onde é. Morava em um apartamento, pelo que tudo indica sozinha. Um conhecido morava em outro apartamento do mesmo edifício em outro andar. Não sei dizer se mais acima ou abaixo. Eu e ele fomos ao apartamento de um homem, um estranho, magro, rosto marcado, pouco cabelo, olhar sem brilho.O que me surpreendeu foi que o meu conhecido estava descalço, com camiseta sem manga e calça social. As unhas dos pés e das mãos dele estavam pintadas com esmalte vermelho, bem manicuradas. Ele falava com o estranho como se o conhecesse e o outro não me olhava como se não estivesse ali e não respondia nada, só olhava para ele. O apartamento estava com as janelas fechadas. Era dia porque dava para perceber pelas frestas da janela Fiquei intrigada. Se houver alguma interpretação, por gentileza me diga. Um abraço…

ASPECTOS ANALÍTICOS DO PRIMEIRO SONHO

Síntese:

Edifício (moradia/decisão sem propósito)
Sozinha (fantasia/falta de sendo crítico)
Relações com um conhecido (fragilidade na associação)
Estranho I (situação estranha/resultado, desdobramento)

Conhecido descalço, camiseta sem manga, calça social, unhas das mãos e dos pés manicuradas de vermelho (sem harmonia, sem estrutura, desequilíbrio (camiseta e calça social) mas com discursos agradáveis e sedutores (chamamento ao desconhecido) (pés e mãos com esmalte vermelho – sensualidade), porém em alguém sem estrutura.

Estranho II (resultado mórbido de uma escolha equivocada; estranho pois é o resultado não desejado, mas real; pobreza/decadência/enfraquecimento; sem energia e beleza; morte das oportunidades)

Apartamento com janelas fechadas, embora fosse dia (situação confusa, escravidão, sem ar, sem sol, sem vida, sem perspectiva)

INTERPRETAÇÃO:

O teu sonho é um sonho-extrato/resultado, sonho tempo-espaço ou sonho-propósito/plano, de caráter sonho-conceito/alienação.

Extrato/resultado:

Você se encontra em um edifício, sozinha (vertical no visual, mas horizontal no efeito). Ou seja, você construiu um situação e tem convicção de que é para melhor, para cima, para o crescimento; você acredita, profundamente, estar certa, pois se baseia apenas no que pensa e sente, mas o que tem, ainda, é a horizontalidade, isto é, não há realmente perspectiva de elevar-se (mantendo-se nesse edifício) pois o alcance é sempre o horizonte. O seu modo de pensar não encontra verdadeiramente eco nas pessoas que a cercam, pois você habita o espaço criado pela sua imaginação e mantido pela fantasia sozinha e incomoda-se com isso, procurando levar outras pessoas a pensarem com você e percebe estar mal sucedida.

Tempo/Espaço estranhos:

Você acredita que outras pessoas estejam compreendendo você pelo fato de “viverem a mesma fantasia”, de “desejarem a mesma coisa”. Normalmente, as pessoas fantasiosas procuram outras iguais a si mesmas, a fim de encontrarem “socialmente” quem as compreenda e quem as engane com o “mesmo discurso”. Neste caso você acredita que a pessoa que mora no mesmo edifício seja sua conhecida, quando não o é. Trata-se de confusão de um propósito/plano que precisa, a qualquer custo, tornar-se realidade. Mas, é enganoso, pois o que você chama de “conhecido” mora no mesmo edifício (na mesma ilusão, fantasia), mas você não sabe se nos andares acima ou abaixo do seu, pois todos têm visão limitada. Vêem apenas o horizonte, mas não podem crescer, não podem verticalizar. O conhecido, por isso mesmo, é um desconhecido porque, embora more no mesmo prédio, não está em sintonia com você (mais pra cima ou mais pra baixo é a expressividade da falta de propósitos/planos iguais). No caso todos se enganam, todos moram no vertical fantasioso, mas vivem o horizontal real. Os tempos aí não são os mesmos, ou seja, as oportunidades não são as mesmas, pois o horizonte de um não será o horizonte de outro e, um e outro, são obstáculos verticais, sendo teto ou piso um do outro. Planos e Tempos diferentes, Oportunidades diferentes e aborrecimento.

Propósito/plano fantasioso:

Acreditando estar associada a alguém com quem possa compartilhar as idéias, os pensamentos e os sonhos são, na realidade, conduzidos à decadência. Isto ocorre, não por sorte ou maldição, mas porque as pessoas se baseiam na “fantasia”, na “irrealidade”, perdendo o “senso crítico” e a “capacidade de julgar”. A decadência é simplesmente resultado de uma opção “fantasiosa”. Infelizmente as pessoas não possuem “instrução” e por isso mesmo se perdem.

A situação/resultado, por falta do propósito/plano ou por um propósito/plano “fantasioso” e inoportuno é a falta completa de perspectiva (homem estranho), é o desgaste social (magro), o sofrimento posterior porque a vida é curta (rosto marcado), a falta de energia e beleza (pouco cabelo) e a desilusão (olhar sem brilho).

A energia é gasta à toa na medida em que os outros conhecem a experiência “sem brilho, sem expressão de vida, decadente, e mórbida (olhos sem brilho)”.

Normalmente, quando erramos por conta das nossas fantasias, nos associamos a outras pessoas, igualmente decadentes e com experiência vampiresca. É o que se chama de “via romântica” cujos dissabores são maquiados, escondidos e fantasiados, a fim de se revelar depois (o estranho em direção ao qual se vai) a morbidez, o desfazimento, a descriação do ser e a falta de luz. A luz fica fora dessa perspectiva mórbida (vê-se a luz pelas frestas, mas ela não está dentro). É o momento em que a alma se desfaz em pó porque a luz está lá fora, o sol está lá raiando, mas os mórbidos, escondidos dentro de uma experiência vampiresca, em que tirar a vida do outro, é melhor.

Conceito/alienação:

O teu conhecido (que pode ser você mesma) está sem preparo para viagem, sem condições de “estrada” (descalço), embora se apresente “sensualmente” sedutor ou com “perspectivas” amorosas (unhas dos pés e mãos vermelhas com perfeição). A ilusão é perfeita porque é ilusão, é a ponta, é a máxima expressão, ainda que sem substância que se revela incômodo, na medida em que a associação (com idéias ou pessoas) é desarmônica (calça social com camiseta sem manga).

O homem estranho (vida mórbida, decadente, confusa, sem inteligência, sem luz, sem brilho, sem alegria) é o ponto para o qual se caminha, é o resultado de escolhas equivocadas, é o desdobramento de semeaduras injustas. O “sócio”, o “associado” ou o “conhecido” leva o outro. Por quê? Porque o estranho olha fito nele, tem a ver com ele, É ELE! Desconhece e não leva em conta a pessoa levada, assim como nos relatos vampirescos ou de magia negra, em que alguém é o condutor do outro (a oferta para a morte ou para relações mórbidas, senão veja-se “… o outro não me olhava, como se eu não estivesse ali e não respondia nada, só olhava para ele…). É a típica relação coisificada/reificada em que as pessoas se tornam um objeto, uma coisa, para ser entregue, para ser alienada. Não há diálogo com o estranho, ou seja, o resultado não faz parte da fantasiosa perspectiva, mas espera impassível a entrega da coisa (vida) transformada em coisa (oferta/morte).

Conclusão:

Sonhos não têm um caráter profético, portanto, são prenúncios do “possível”, mas, não necessariamente do que sucederá, pois temos a possibilidade de “manipular” nossos “tempos/oportunidades” com escolhas melhor dirigidas, com decisões efetivas. Não estamos entregues a nenhum tipo de força externa (nem maligna nem benigna), pois, como judeus, fomos colocados no jardim “para cultivar o jardim”. Como judeus fomos formados “para conduzir” a relação, pois somos um povo de “sacerdotes”. E como judeus recebemos o conhecimento/instrução para “ensinar”, ou seja, formar consciências capazes de iluminar.

Um dos pontos mais fortes na nossa formação é a consciência de CAUSALIDADE (causa/efeito) com a qual a Torá está toda costurada, toda construída. A relação de causa e efeito nos remete a decisões plenas de luz (Sete Espíritos do Eterno). Em outras palavras, somos capazes de saber o resultado de uma decisão; somos capazes de avaliar os riscos; somos capazes de ponderar e antecipar resultados, sobretudo, quando detentores de um conhecimento ainda mais refinado, chamado “Kabbalah”.

As decisões baseadas na fantasia é a regra. As decisões baseadas na Torá, a exceção! A primeira nos leva ao resultado do sonho narrado e descrito, sem diálogos de valor, pois são construções sem estruturas (fantasia é o engano dos sentidos: a cegueira, a falta de tato, a falta de escutar, a falta do discernimento no paladar, a falta de sensibilidade para reconhecer os bons perfumes dos líquidos químicos). Soma-se a esta falta de “sentidos” práticos, a falta da elevação (visão horizontalizada/edifício de apartamentos), a falta de grandeza de propósitos, de verticalização (pés no chão nos dão a possibilidade de enxergar o espaço, de elevarmo-nos às alturas). Judeus são aqueles que, além dos cinco sentidos, têm, também, a realidade do “deserto”, do frio e calor, do espaço aberto para enxergar para além do “egito”, do pó, dos moabidas sensuais, dos amalekitas violentos. São os que enxergam “gigantes” como “pão”.

Enfim, este sonho só será realidade se você assim o quiser!
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O SEGUNDO SONHO:

Prezado Rav Dellova, aproveito para dizer-lhe que nesta noite outro sonho aconteceu. Dessa vez estava ao ar livre. Era dia! Estava em um terreno e estava limpo. Havia um lixeiro comigo de uniforme laranja. Ele já havia amontoado o entulho. Ele colocou mais um pouco ( entulhos menores) que havia amontoado em uma lona e me disse: Com este terminaram os entulhos, posso levá-los embora? Eu respondi: Leva tudo, quero este lugar totalmente limpo! Era dia claro, dia de sol! Era colorido. Via a cor da terra – o chão era de terra. O lixeiro, um rapaz, que falou comigo não vi o rosto dele. Sei que usava um boné também laranja e os cabelos eram crescidos, escuros e encaracolados. O terreno era semelhante quando vamos iniciar uma construção. O terreno no sonho era meu. Eu não me via, não sei como explicar, mas estava bem vestida, de saia, sapatos, blusa fina de manga comprida. O lixeiro usava botas e luvas. Ele estava calmo e eu também. Creio são mais esses detalhes. Também haverá interpretação?

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ASPECTOS ANALÍTICOS DO SEGUNDO SONHO:

1. Era dia claro/ensolarado/ao ar livre:
2. Terreno (terra) limpo/próprio/início de construção:
3. Lixeiro sem rosto em ação (serviço completo):
4. diálogo: levar? sim!
5. vestida com roupas novas e finas:
6. Lixeiro e você: calmos:

INTERPRETAÇÃO:

O teu sonho anterior apontava uma situação confusa, sem ar, com perspectivas limitadas, faltas de propósitos claros etc…

Este teu sonho aponta um PROCESSO de CONSTRUÇÃO/EDIFICAÇÃO, no qual alguns pontos são destaques:

1. Você DEVERÁ CONSTRUIR situações concretas em que a amplitude de oportunidades, tanto a horizontalidade quanto a verticalidade se encontrem. Dia/clareza/sol/nitidez demonstram esse encontro vertical-horizontal, desejável a todas as pessoas. Afinal, é preciso caminhar, expandir horizontalmente, mas verticalizando, sempre, em espaços abertos, ou seja, com oportunidades visíveis, palpáveis, realizáveis e razoáveis! Enfim, o espaço propício deve ser construído por você. O dia ensolarado, claro e amplo que você percebe no seu sonho, é o que você deverá construir. É a oportunidade que você deverá se dar.

2. O terreno (espaço em terra) que você vê no seu sonho é a expansão horizontal, os pés no chão, a realidade, o possível. O espaço em que você PODERÁ plantar ou CONSTRUIR. Possivelmente construir, vez que seu perfil não demonstra expansão social, mas construção individual. em outras palavras, quem constrói, o faz para si; quem planta, o faz para outrem. No seu caso é mais lógico falar em auto construção. Entretanto, não é a situação na qual você se encontra, pois o sonho não aponta para o presente, mas para o futuro, ou seja, o terreno poderá ficar propício para construção dependendo da sua ação consciente e direta;

3. A pessoa que você vê (o lixeiro com cabelos escuros, encaracolados, crescidos, vestido de laranja e com boné) representa os instrumentos que você utilizará. Mas, aí mora o “nó” e o PROBLEMA do seu sonho, pois você não tem certeza, ainda, de quais instrumentos, meios e habilidades, você utilizará para limpar, para tirar o entulho (conceitos, pré-conceitos, marcas antigas, aprendizados religiosos e familiares, assimilação da sociedade em moda, enfim, tudo o que marca você desde os primeiros anos de vida e te faz mal). Mas, você conhece os instrumentos, só não sabe como utiliza-los ainda. Ele está paramentado para o trabalho, ou seja, você tem os mecanismos, os instrumentos, precisando, agora, saber utilizá-los.

4. O diálogo que você estabelece com o lixeiro é característico da dúvida que você ainda tem. Não se fala com o lixeiro, ele deveria saber qual o destino do entulho que está tirando, mas você ainda, na dúvida, fica se perguntando sobre o destino do entulho, pois acha que ele (o entulho) tem algum valor ainda. Caso não supere este diálogo com o lixeiro, não conseguirá deixar o terreno preparado para construção, pois não se constrói sobre os entulhos!

5. As roupas com as quais você está vestida, roupas finas, bem vestida etc… demonstra, por outro ângulo, o seu despreparo para construir, a sua dúvida, a sua necessidade de encontrar harmonia entre a construção e seu estado atual. Você aprecia o que é, mas precisa construir. Você quer carregar algo em você que julga bom, fino, educado, mas que não se compatibiliza com o processo de construção. Quem constrói, ensinava o meu Rav Biagio, o faz com roupas adequadas, roupas de trabalho. Nesse sentido, você deverá se preparar melhor para este empreendimento, ou seja, construir-se. Mas, isso só será possível quando não tiver mais dúvida (diálogo com o lixeiro), quando puder ver seu rosto claramente e quando estiver vestida apropriadamente para a construção. Você no seu eu integral está ainda em desarmonia plena (corpo, alma, espírito e relações sociais). Deve aprender a lidar melhor com você, enquanto CORPO, com você enquanto EMOCIONAL, com você enquanto PROCESSOS CRIATIVOS E INTELECTUAIS e com você enquanto RELAÇÕES SOCIAIS.

6. Há consciência da necessidade de mudança, você sabe que precisa mudar e esta consciência em você é tranqüila, sabe que precisa tirar seu próprio entulho, (do seu corpo (físico), da sua alma (emocional), do seu espírito (intelecto) e das suas relações sociais (amorosas, profissionais, amizades e familiares). Você já compreendeu (ele está calmo e estou calma no sonho) que o PROCESSO é irremediável, improrrogável, intransferível e ATUAL. Isso tranqüilo em você, mas você não sabe como e tem dúvidas quanto á estratégia, tem dúvidas quanto ao destino do entulho, pois afinal o seu entulho, que atrapalha sua construção, foi armazenado por toda a sua vida!

Nas bênçãos do Eterno e na Luz do Mashiach

Sivan, 5767 – junho de 2007

Rav J. Pietro B. Nardella-Dellova

Sinagoga Sêh HaElohim-Scuola

copyright: não reproduzir este texto ou utilizá-lo sem prévia e expressa autorização do autor, sob as penas da lei.

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© Rav J. Pietro B. Nardella Dellova, 44, de origem judeu-italiana, é Mestre em Direito pela USP (A Crise Sacrificial do Direito: um estudo de René Girard, Martin Buber e Rabi Yeshua BenYosef). É Mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP (A Palavra Como Construção do Sagrado: um estudo da Torá, da Poesia em Heidegger e Osman Lins). Pós-graduado em Direito Civil (Os Direitos da Personalidade). Pós-graduado em Literatura Brasileira (A Palavra Multifacetada: do grau zero e outros graus da palavra). É Formado em Filosofia e em Ciências Jurídicas e Sociais. Poeta e Membro da União Brasileira de Escritores – UBE. Autor dos livros: AMO, NO PEITO e ADSUM. Ex-membro da Comissão de Bioética e Biodireito da OAB/SP. Rav (Mestre) na Sinagoga Sêh HaElohim-Scuola, fundada em 10 de Nissan, 5767 em São Paulo (originada da Beit Midrash/Casa Degli Spiriti, Quartiere Ebraico, Província di Latina, Itália), tradicional. Membro da OAB e da AASP. Consultor e Palestrista. Professor de Direito Civil, Ética e Filosofia do Direito em São Paulo. Coordenador e Professor dos Cursos de Direito da Faculdade de Jaguariúna e da Faculdade Policamp. Coordenador e Professor dos Cursos de Pós-graduação em Direito Empresarial das mesmas Instituições, em SP.

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http://www.policamp.edu.br/artigos.html

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Prof. Nardella-Dellova