Accessibility Tools

Hezbollah: dois anos após Nasrallah, legado pesa no Líbano

Dois anos se passaram desde a morte de Hassan Nasrallah, o carismático secretário‑geral do Hezbollah, e o legado que o líder deixou ainda pesa de forma dolorosa sobre a comunidade xiita do sul do Líbano. Durante mais de três décadas, Nasrallah vinculou a existência das armas do Hezbollah à defesa do país, sobretudo da região sul, que historicamente tem sido o principal campo de batalha entre o grupo e Israel. Após a guerra de 2006, quando a questão do desarmamento do Hezbollah voltou à pauta, o líder argumentou que, se Israel atacasse novamente, nem o exército libanês nem a Força Interina das Nações Unidas (UNIFIL) seriam capazes de proteger a população. Assim, ele transformou a “resistência” em uma espécie de guarda‑costas nacional, justificando a permanência dos combatentes nas aldeias fronteiriças como um direito inalienável de defender a terra libanesa.

Entretanto, com a partida de Nasrallah, a realidade que se impôs ao povo xiita revelou-se muito mais amarga. As decisões estratégicas do Hezbollah – tomadas em Cabul, em Beirute ou em Teerã – têm sido executadas nas aldeias do sul, cujos habitantes pagam o preço mais alto: casas destruídas, vilarejos arrasados, famílias deslocadas e uma infraestrutura rural em ruínas. O ponto de inflexão ocorreu em 8 de outubro de 2023, quando o Hezbollah, em solidariedade à causa palestina, abriu um novo front contra Israel sem qualquer autorização do governo libanês ou das Forças Armadas. O ataque desencadeou uma série de bombardeios israelenses que, ao visarem alvos do Hezbollah, atingiram indiscriminadamente áreas civis, provocando novas ondas de deslocamento entre os xiitas do sul.

A situação se agravou ainda em março de 2026, quando o grupo retomou as hostilidades. Mais uma vez, milhares de moradores foram forçados a abandonar suas casas, enquanto o exército israelense continuava a lançar ataques que devastavam vilarejos e campos agrícolas. Embora Israel seja responsável pelos estragos causados pelos seus bombardeios, a comunidade xiita não aceita que essa culpa exclua o Hezbollah de sua própria responsabilidade. O clero xiita local, representado pelo xeque Mohammad al‑Hajj Hassan, líder da corrente “Free Shiite Current”, descreveu o panorama como uma “real Nakba”, termo que remete à catástrofe palestina de 1948, mas aqui aplicado ao deslocamento forçado dos xiitas libaneses. Em entrevista, o xeque afirmou que as armas do Hezbollah “não trouxeram nada, nada” para os xiitas, nem em termos de segurança nem de desenvolvimento.

A crítica também vem de dentro da própria comunidade. Um ativista xiita, em postagens nas redes sociais, denunciou que o Hezbollah tem preferido cavar túneis e investir em logística de guerra ao invés de construir escolas, hospitais e melhorar a agricultura. Essa percepção de abandono alimenta um ressentimento crescente, que questiona a narrativa de proteção que o grupo tem mantido desde a década de 1990.

As implicações políticas desse desencanto são profundas. Primeiro, enfraquece a legitimidade do Hezbollah como guardião da nação, ao revelar que sua estratégia militar tem custado a própria população que deveria proteger. Segundo, abre espaço para que outras correntes políticas libanesas – inclusive movimentos sunitas e cristãos – cobrem maior responsabilidade ao Estado libanês na defesa do sul, pressionando por uma solução que inclua o desarmamento parcial ou a integração das forças do Hezbollah ao exército nacional. Por fim, o clima de insatisfação pode ser aproveitado por potências regionais, como o Irã, que financia o grupo, para reavaliar seu apoio ou para impor novas exigências estratégicas.

Em síntese, o aniversário da morte de Nasrallah traz à tona uma “Nakba” xiita que ainda não recebeu a devida atenção nos debates internacionais. Enquanto Israel continua a responsabilizar-se pelos danos colaterais de seus ataques, o Hezbollah precisa responder às demandas de sua própria base, que clama por investimentos reais em infraestrutura e por uma proteção efetiva que vá além da retórica de resistência. O futuro da região dependerá de como esses conflitos de interesses serão negociados, tanto dentro do Líbano quanto no tabuleiro geopolítico mais amplo do Oriente Médio.


📖 Perspectiva Bíblica

“Porque o que confia no homem será frustrado; mas quem confia no Senhor será salvo.” (Jeremias 17:5)

Fonte original: 2 years after Nasrallah, Hezbollah's Shiite backers ask who really failed them — Israel Hayom

© 2025 IsraelAgency.com.br. Todos os direitos reservados.