A intensificação da ofensiva dos houthis no Iêmen deixou de ser um problema meramente interno para se transformar em uma ameaça regional que carece de um contrapeso eficaz. Nos últimos meses, o movimento xiita, apoiado pelo Irã, ampliou sua atuação de confrontos tribais para ataques diretos contra a Arábia Saudita, atingindo instalações energéticas, impondo bloqueios marítimos e ocupando pontos estratégicos como a cidade de Mokha, a ilha de Mayun e o estreito de Bab al‑Mandeb. Essa expansão demonstra que os houthis já dispõem de capacidade operacional para pressionar rotas de navegação críticas, o que, se mantido, concederia a Teerã um novo ponto de alavancagem contra o Reino Saudita, os Estados Unidos e o comércio global de energia, sem a necessidade de envolver tropas iranianas diretamente na região.
Do ponto de vista israelense, o avanço houthis representa um risco duplo. Primeiro, ao fortalecer o Irã no corredor que liga o Golfo Pérsico ao Mar Vermelho, o grupo cria a possibilidade de pressionar simultaneamente os estreitos de Hormuz e Bab al‑Mandeb, duas das vias marítimas mais sensíveis do mundo. Segundo, os houthis vêm desenvolvendo capacidades para realizar ataques contra Israel, o que, à luz da lição do 7 de outubro, exige que o Estado judeu não espere que essas habilidades se consolidem para agir.
A resposta direta de Israel ainda não se mostra viável, dado o cenário de múltiplas tensões em outras frentes. Contudo, o país pode adotar uma estratégia mais sutil e de longo prazo: aprofundar a cooperação de inteligência com a Arábia Saudita, por meio dos Estados Unidos, e fortalecer a coordenação regional. Essa colaboração permitiria a criação de capacidades operacionais indiretas que complementem a campanha aérea israelense, possibilitando ataques a centros de comando, redes de controle e infraestrutura de produção de armas dos houthis. Ao demonstrar que a distância geográfica do Iêmen não oferece impunidade, Israel enviaria um forte sinal de dissuasão.
Paralelamente, a política israelense poderia incluir apoio a grupos anti‑houthis dentro do Iêmen, como as forças do governo reconhecido internacionalmente, tribos locais e outras facções sociais. O treinamento e a instrução desses atores visariam minar a governança houthis, fragmentando sua base de apoio interno. Contudo, o sucesso de tal coalizão dependerá, em grande medida, da reconciliação entre a Arábia Saudita e seus vizinhos, bem como da disposição de países como os Emirados Árabes Unidos e a Somália em participar de um esforço conjunto no Mar Vermelho.
As possíveis implicações são amplas. Caso Israel consiga estabelecer uma rede de inteligência e apoio que limite o avanço houthis, o Irã perderá um importante vetor de pressão sobre a Arábia Saudita e os aliados ocidentais. Por outro lado, a falha em conter o grupo pode resultar em um cenário onde o Iêmen se torne um ponto de partida para ataques contra Israel, ao mesmo tempo em que o comércio marítimo global ficaria vulnerável a interrupções recorrentes. Assim, a estratégia de “capacidade indireta” proposta – combinando inteligência, apoio a forças locais e preparação para intervenções pontuais – pode ser a via mais prudente para que Israel preserve sua segurança nacional enquanto contribui para a estabilidade de um corredor estratégico cada vez mais contestado.
📖 Perspectiva Bíblica
“Ele é a rocha, a minha fortaleza, e nele confiarei; pois o Senhor é o meu alto refúgio, e não temerei o que me possa acontecer.” (Salmos 61:3)
Fonte original: Not by air or sea: The new way Israel could take on the Houthis — Israel Hayom
