Os documentos divulgados pela revista TIME trazem à luz um aspecto pouco conhecido da política israelense em relação à Faixa de Gaza: a solicitação, feita pelo governo de Benjamin Netanyahu, para que o Catar mantivesse o fluxo de recursos financeiros ao território, ainda que oficiais israelenses de alto escalão criticassem publicamente o financiamento qatari. Entre os papéis vazados está uma carta de dezembro de 2020, assinada pelo então diretor do Mossad, Yossi Cohen, na qual o agente agradece a Doha pela “assistência humanitária” prestada a Gaza e destaca o papel desses recursos na estabilização regional. A mensagem, embora diplomática, contrasta com a retórica oficial que frequentemente acusa o Catar de sustentar o Hamas.
A prática de transferência de fundos do Catar para Gaza tem raízes que remontam a 2007, quando o então primeiro‑ministro Ehud Olmert viu o Hamas assumir o controle da região após um confronto violento com a Autoridade Palestina. Naquele período, Israel não participava diretamente da operação; o dinheiro era enviado ao território por meio de canais humanitários, sem a supervisão de Tel Aviv. Essa dinâmica mudou com o retorno de Netanyahu ao poder. A partir de 2012, o governo israelense passou a aprovar um mecanismo que lhe conferia um papel ativo na distribuição da ajuda qatari: a seleção das famílias palestinas beneficiárias, a entrega de alimentos e suprimentos médicos, e a aprovação de projetos para ampliar a oferta de energia elétrica em Gaza. Essa cooperação, inicialmente informal, foi confirmada por documentos oficiais obtidos pela TIME e por declarações de autoridades tanto israelenses quanto árabes.
O paradoxo entre a condenação pública e a colaboração privada gerou tensão. Um alto funcionário da primeira administração Trump relatou que, nos bastidores, Israel pedia ao Catar que continuasse os pagamentos, enquanto mantinha uma postura de crítica externa. Essa duplicidade teria irritado o emir do Catar, Tamim bin Hamad al‑Thani, que, em 2018, exigiu um acordo escrito que formalizasse o papel de Israel na cadeia de assistência. O resultado foi a criação de um mecanismo trilateral envolvendo Catar, Israel e as Nações Unidas, que passou a gerir os recursos sob supervisão conjunta. Em 2 de outubro de 2018, Israel e Catar assinaram, com o aval da ONU, um acordo para financiar a entrega de combustível a Gaza, consolidando a estrutura que até então operava de forma ad hoc.
Em 2019, a relação chegou a novos impasses. Em janeiro, Netanyahu suspendeu temporariamente os pagamentos do Catar, usando a retomada da ajuda como moeda de pressão sobre o Hamas, na esperança de que a interrupção forçasse o grupo militante a cessar ataques. Essa estratégia evidenciou a natureza instrumental que o governo israelense atribui à ajuda humanitária: não apenas um gesto de compaixão, mas também uma ferramenta de política coercitiva.
As revelações têm implicações importantes para o entendimento da política de segurança e da diplomacia humanitária na região. Primeiro, demonstram que, apesar da retórica agressiva contra o Hamas e contra quem o financia, Israel reconhece a necessidade de manter um fluxo mínimo de recursos que evite um colapso humanitário total em Gaza, o que poderia gerar instabilidade e ampliar a onda de radicais. Segundo, a formalização do mecanismo trilateral indica uma maturação da cooperação, permitindo maior transparência e controle internacional, o que pode reduzir as acusações de que o Estado israelense se beneficia diretamente de recursos que supostamente sustentam grupos terroristas. Por fim, a estratégia de suspender pagamentos como forma de pressão revela a fragilidade das negociações de cessar‑fogo e a dependência de Gaza em relação a atores externos, reforçando a necessidade de soluções políticas mais abrangentes que transcendem a mera assistência emergencial.
📖 Perspectiva Bíblica
“Não façais acepção de pessoas, nem tomareis de vista o pobre, porque a justiça é de Deus e não de homens.” (Provérbios 24:23)
Fonte original: Documents reveal Netanyahu government asked Qatar to keep funding Gaza — Israel Hayom
