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O poder emergente do reino de Mamon: Quando o capital privado se torna ferramenta de domínio global

No Sermão do Monte, Jesus formula uma das afirmações mais nítidas e desconfortáveis de todo o Novo Testamento:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamon.” (Mateus 6:24)

A palavra Mamon (do aramaico māmōnā) não designa apenas “dinheiro”. Ela aponta para a riqueza personificada — um senhor rival que exige lealdade. Nos textos rabínicos da época, Mamon já carregava a conotação de ganho injusto, de riqueza que se torna ídolo. Jesus não condena a posse em si, mas a submissão a um sistema de valores no qual a acumulação e o controle econômico se tornam o centro da existência.

Essa advertência ecoa em outros textos. Em Lucas 16, a parábola do administrador infiel culmina com a mesma tensão entre “as riquezas injustas” e a fidelidade verdadeira. No Apocalipse, a Besta exerce autoridade não apenas pela força militar, mas pela capacidade de regular o comércio e a sobrevivência econômica: “para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tiver a marca” (Apocalipse 13:17). A combinação de poder político e domínio econômico forma o núcleo do que muitos intérpretes ao longo da história cristã identificaram como a lógica da Besta.

Mamon, portanto, não é apenas um pecado individual de avareza. É uma ideologia de governo: a organização da vida coletiva em torno do interesse econômico como valor supremo. Quando o capital se torna o verdadeiro soberano — quando decisões de Estado, alianças e até a paz são mediadas por quem controla fluxos financeiros opacos —, estamos diante de uma manifestação contemporânea dessa lógica.


Diplomacia paralela e a zona cinzenta do poder

Nas últimas décadas, a diplomacia tradicional convive com uma diplomacia paralela. Figuras sem cargo formal permanente, sem confirmação do Senado e sem declaração completa de interesses financeiros passam a mediar conflitos de alto nível. Elas operam com acesso direto a chefes de Estado, enquanto simultaneamente controlam ou se beneficiam de veículos de investimento financiados por governos cujos interesses estão em jogo nas negociações.

Esse modelo cria uma zona cinzenta perigosa. A accountability democrática — eleições, fiscalização parlamentar, transparência financeira — é substituída por redes pessoais e fluxos de capital soberano. O risco não é apenas a corrupção pontual, mas a captura estrutural: o interesse público passa a ser negociado por quem também lucra com o capital das partes interessadas.


Jared Kushner e a Affinity Partners

Para tornar concreto esse padrão, examine-se o caso de Jared Kushner — não como “candidato” a líder apocalíptico, mas como exemplo documentado de conduta ambígua.

Após deixar a Casa Branca em janeiro de 2021, Kushner fundou a Affinity Partners, uma firma de private equity sediada em Miami. Segundo investigações do Comitê de Finanças do Senado dos Estados Unidos, lideradas pelo senador Ron Wyden, aproximadamente 99% do capital sob gestão originou-se de fontes estrangeiras, principalmente os fundos soberanos da Arábia Saudita (Public Investment Fund – PIF), dos Emirados Árabes Unidos e do Catar. O PIF, controlado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, comprometeu US$ 2 bilhões.

Em carta oficial de setembro de 2024, Wyden revelou que a Affinity havia recebido até US$ 157 milhões em taxas de gestão de clientes estrangeiros, sendo cerca de US$ 87 milhões apenas da Arábia Saudita. A taxa cobrada do PIF era de 1,25% ao ano sobre o capital comprometido — aproximadamente US$ 25 milhões anuais. Até julho de 2024, segundo documentos examinados pelo comitê, a firma não havia distribuído nenhum lucro aos investidores (“not a penny of earnings”).

Wyden escreveu textualmente:

“Os investidores da Affinity podem não estar motivados por considerações comerciais, mas sim pela oportunidade de canalizar dinheiro de governos estrangeiros para membros da família do presidente Trump, a saber Jared Kushner e Ivanka Trump. […] Affinity é provavelmente parte de um esquema de compensação envolvendo figuras políticas americanas, projetado para contornar o Foreign Agents Registration Act.”

A partir de 2025, com o retorno de Donald Trump ao poder, Kushner voltou a atuar como interlocutor central em negociações de alto nível — cessar-fogo e reconstrução de Gaza, contatos relacionados ao Irã e esforços de expansão dos Acordos de Abraão —, frequentemente sem cargo formal permanente. A Casa Branca classificou sua atuação como de “cidadão privado” e “voluntário”, isento, portanto, das exigências de declaração financeira.

Em abril de 2026, o deputado Jamie Raskin, líder democrata do Comitê Judiciário da Câmara, abriu investigação formal. Em carta dirigida a Kushner, afirmou:

“A decisão de atuar nesses dois papéis — um público para o governo e outro privado para lucro pessoal — cria um conflito de interesse gritante e incurável. […] Você não pode representar fielmente os Estados Unidos com bilhões de dólares em dinheiro saudita e emiradense queimando no bolso de cada terno que você usa.”

Kushner, por sua vez, rejeitou as acusações. Em entrevista ao programa 60 Minutes, declarou:

“O que as pessoas chamam de conflitos de interesse, Steve [Witkoff] e eu chamamos de experiência e relacionamentos de confiança que temos em todo o mundo.”

A firma Affinity afirmou cumprir todas as leis de valores mobiliários e que não pretende captar novo capital enquanto Kushner “voluntaria” para o governo. Ainda assim, reportagens do New York Times de março de 2026 indicaram que houve conversas sobre a captação de pelo menos US$ 5 bilhões adicionais junto a governos do Oriente Médio no mesmo período em que ele atuava como negociador.


O padrão estrutural: capital soberano + acesso privilegiado

O caso não é isolado. Ele ilustra um modelo mais amplo: governos autoritários ou semi-autoritários encontram canais privilegiados de influência por meio de private equity e de “diplomacia de relacionamento”. O mesmo indivíduo que intermedia acordos de paz ou de segurança é, simultaneamente, gestor de capital daqueles cujos interesses estão em jogo.

Essa sobreposição dissolve a fronteira entre interesse público e interesse privado. Não é necessário que haja “compra” explícita de decisões. Basta estruturar incentivos, relacionamentos e canais de acesso de modo que o capital e o poder político se reforcem mutuamente. É precisamente nesse ponto que a lógica de Mamon se manifesta com maior clareza: a riqueza deixa de ser apenas meio e se torna o verdadeiro organizador das relações de poder.


Implicações e vigilância

O Apocalipse não descreve apenas um indivíduo, mas um sistema no qual o controle econômico se torna instrumento de lealdade e submissão. A história contemporânea mostra, em escala menor, como a concentração de influência econômica e diplomática nas mãos de poucos já gera assimetrias profundas.

Este artigo não visa uma caça a “candidatos” a Anticristo — prática historicamente marcada por erros e excessos. O objetivo é a transparência, devemos criar freios institucionais e de clareza, devem haver limites entre o serviço público e o lucro privado. O Reino de Deus, segundo as Escrituras, se manifesta em justiça, verdade e serviço ao próximo. Qualquer sistema que organize o poder prioritariamente em torno da acumulação e da influência política sem mínima ética, merece desprezo contínuo — seja ele chamado de Mamon, de Besta ou simplesmente de captura econômica do Estado. O que vemos em nossos dias são os limites da sanidade política e privada sendo apagados, sem mesmo haver quem questione os fatos.

Vemos líderes que dizem que pode determinar o destino de bilhões de pessoas baseados em seus interesse pessoais, o dinheiro e o poder.

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