Índice
Introdução
Orde Charles Wingate (1903-1944) foi um oficial do Exército Britânico, especialista em guerra de guerrilha e um cristão sionista convicto. Sua vida e carreira militar, marcadas por inovações táticas e um apoio inabalável ao sionismo, o tornaram uma figura lendária na história de Israel. Conhecido como “Ha-Yedid” (o Amigo) entre os judeus do Yishuv (a comunidade judaica na Palestina Mandatária), Wingate não apenas ajudou a combater o terrorismo árabe durante a Revolta Árabe de 1936-1939, mas também lançou as bases para a doutrina militar que viria a definir as Forças de Defesa de Israel (IDF). Este artigo analisa sua trajetória histórica e destaca sua importância para o povo de Israel, com base em fontes confiáveis que revelam seu legado duradouro.
Primeiros Anos e Formação Militar
Nascido em 26 de fevereiro de 1903 em Nainital, na Índia Britânica (atual Uttarakhand, Índia), Wingate veio de uma família escocesa pertencente aos Irmãos de Plymouth, um grupo cristão não conformista. Sua educação foi profundamente influenciada por valores cristãos, incluindo uma visão pró-sionista derivada de interpretações bíblicas que enfatizavam o direito dos judeus à terra de Israel. Ele estudou na Charterhouse School, onde foi isentado de orações anglicanas devido às suas crenças, e graduou-se na Real Academia Militar de Woolwich em 1923, como oficial de artilharia.
Após estudar árabe na Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres, Wingate foi enviado para o Sudão em 1928, onde inovou em táticas de patrulha, substituindo rondas tradicionais por emboscadas contra contrabandistas e caçadores na fronteira com a Etiópia. Em 1933, liderou uma expedição no Deserto da Líbia em busca de evidências do exército perdido de Cambises II e da mítica Zerzura, embora sem sucesso. De volta à Grã-Bretanha, casou-se em 1935 com Lorna Elizabeth Margaret Paterson, com quem teve um filho, Orde Jonathan Wingate, nascido postumamente em 1944.
Esses anos iniciais revelam um homem excêntrico e determinado, características que o definiriam em missões futuras. Sua educação religiosa e experiências em terrenos hostis prepararam o terreno para seu envolvimento na Palestina, onde sua visão sionista se cristalizaria.
Envolvimento em Israel Mandatória: A Fundação das Esquadras Noturnas Especiais
Em setembro de 1936, Wingate foi enviado à Israel como oficial de inteligência em Haifa, transferindo-se posteriormente para o quartel-general em Jerusalém. Lá, ele compilou inteligência a partir da imprensa árabe e hebraica, criando um banco de dados sobre figuras chave. Rapidamente, estabeleceu laços com líderes do Yishuv, como Chaim Weizmann, Moshe Sharett e outros, declarando-se abertamente sionista e defendendo o direito dos judeus à autodeterminação.
Durante a Revolta Árabe, Wingate propôs a criação de um exército judeu após as recomendações da Comissão Peel. Em março-abril de 1938, ele se hospedou no kibutz Tirat Tzvi, mapeando o Vale do Jezreel para combater o contrabando de armas árabes, com a ajuda de vigias judeus locais. Em junho de 1938, fundou as Esquadras Noturnas Especiais (SNS), compostas por cerca de 40 soldados britânicos e 75 membros da Haganah (a organização paramilitar judaica). Baseadas em Ein Harod, onde Wingate residia, essas unidades desenvolveram táticas inovadoras: inteligência precisa, subterfúgio, operações noturnas e ataques surpresa.
Em seis meses (quatro sob seu comando), as SNS causaram 17% das baixas entre as gangues árabes na região, promovendo Wingate a major e concedendo-lhe a Ordem de Serviço Distinto (DSO), a segunda maior honraria do Império Britânico. No entanto, sua postura pró-sionista irritou superiores, levando a sua transferência de volta à Grã-Bretanha em outubro de 1938. Lá, ele defendeu políticas pró-sionistas junto a figuras como Winston Churchill, mas foi removido de Israel em maio de 1939 pelo Gabinete de Guerra por ameaçar a coroa.
Essa fase de sua vida destaca uma análise crítica: Wingate não era apenas um militar; era um visionário que via no sionismo uma causa bíblica e moral. Suas ações transcenderam o dever britânico, alinhando-se diretamente com os interesses judeus, o que o tornou um aliado raro em um período de tensão colonial.
A Segunda Guerra Mundial e a Morte Prematura
Durante a Segunda Guerra Mundial, Wingate continuou a inovar. Em fevereiro de 1941, no Sudão, formou a Força Gideão, composta por tropas britânicas, sudanesas, etíopes e veteranos da Haganah, capturando cerca de 20.000 prisioneiros italianos na África Oriental. Promovido a tenente-coronel, ele sofreu um episódio de malária e tentativa de suicídio no Cairo, possivelmente influenciado por medicação.
Enviado à Índia em 1942, desenvolveu a guerra de penetração de longo alcance, liderando os Chindits (nomeados após uma besta mítica birmanesa). Em 1943, sua primeira operação cortou linhas de suprimento japonesas, mas com pesadas perdas. Apesar das controvérsias – incluindo acusações de bipolaridade e comportamentos excêntricos, como comer cebolas cruas e recusar banhos, Churchill o admirava. Promovido a major-general, Wingate morreu em 24 de março de 1944, em um acidente de avião em Manipur, Índia, aos 41 anos. Seus restos foram re-enterrados no Cemitério Nacional de Arlington, nos EUA.
Sua morte foi lamentada por Churchill, que o descreveu como um “gênio que poderia ter sido um homem de destino”. Essa fase ilustra Wingate como um inovador militar, cujas táticas em guerrilha influenciaram operações globais, mas seu coração permanecia ligado à causa sionista.
Legado e Importância para o Povo de Israel
A importância de Wingate para o povo de Israel é incalculável, transcendendo sua curta vida. Suas táticas nas SNS – ênfase em inteligência precisa, iniciativa ofensiva, vantagem noturna, unidades de elite e penetração rápida em território inimigo – formaram a base da doutrina da Haganah e, subsequentemente, da IDF. Conceitos como “sair da cerca” (de defesa passiva para ativa) revolucionaram a estratégia israelense, influenciando unidades de comando e operações antiterrorismo modernas.
Wingate é lembrado como um herói em Israel: o Instituto Wingate de Educação Física perto de Netanya, a vila juvenil Yemin Orde, a fonte Ein Ha-Chaver, a Floresta Wingate no Monte Gilboa e ruas em cidades como Tel Aviv, Haifa e Jerusalém perpetuam seu nome. Um navio batizado em sua honra transportou imigrantes judeus. Em 1961, seus uniformes foram doados ao Museu da Haganah. Recentemente, em 2024, seu arquivo pessoal – incluindo um caderno de hebraico, diários, fotos e planos de ataque – chegou à Biblioteca Nacional de Jerusalém, graças a esforços de pesquisadores israelenses e doadores, reforçando sua memória como “o Amigo”.
Analisando sua história, Wingate representou uma ponte rara entre o cristianismo evangélico e o sionismo, oferecendo não apenas treinamento militar, mas inspiração moral em um momento de vulnerabilidade judaica. Suas contribuições ajudaram a transformar uma comunidade defensiva em uma nação soberana capaz de se defender, moldando a identidade militar de Israel e inspirando gerações.
Conclusão
Orde Charles Wingate não foi apenas um oficial britânico; foi um aliado visionário cujo apoio ao povo judeu durante tempos turbulentos deixou um legado indelével. Ele foi em primeiro lugar o servo do Altíssimo que entendeu o seu papel histórico, preparando o Povo de Israel para as décadas seguintes. Sua importância para Israel reside na fundação de princípios militares que garantiram a sobrevivência e a independência do Estado judeu. Em um mundo marcado por antissemitismo e conflitos, Wingate simboliza a solidariedade inter-religiosa e inovação estratégica. Seu arquivo recém-chegado a Israel garante que sua história continue a educar e inspirar, provando que “o Amigo” permanece vivo na memória coletiva do povo de Israel.
