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O Reino Unido ainda se acha um império — e quer ditar regras a Israel

O ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, Ed Miliband, condenou nesta quarta-feira (19 de agosto) o lançamento de um edital israelense para a construção de 1.234 unidades habitacionais na área conhecida como E1, entre Jerusalém Oriental e Ma’ale Adumim. Em declaração oficial publicada pelo Foreign, Commonwealth & Development Office, Miliband chamou o projeto de “inaceitável e destrutivo”, afirmando que ele “corta o coração da Palestina” e “coloca em risco a viabilidade de uma solução de dois Estados” — configurando, em suas palavras, “violação flagrante do direito internacional”. O chanceler britânico convocou o encarregado de negócios da Embaixada de Israel em Londres para uma repreensão formal e exigiu que o governo de Benjamin Netanyahu retirasse o edital e interrompesse toda expansão de assentamentos.

Miliband declarou que o Reino Unido “não ficará de braços cruzados diante da destruição da solução de dois Estados” e anunciou que, nas próximas semanas, apresentará um “pacote abrangente de medidas” em resposta à política israelense — incluindo sanções direcionadas a quem participa da expansão de assentamentos considerados ilegais pelo governo britânico. A reação ocorreu um dia depois de o Ministério da Habitação de Israel publicar o edital, com prazo de propostas fixado antes das eleições gerais israelenses previstas para outubro. Diplomatas europeus já vinham tratando qualquer avanço em E1 como uma “linha vermelha”, alegando que Israel havia sinalizado a parceiros do continente que a área não seria tocada.

O governo israelense rejeitou o tom da declaração britânica, classificando-o como um resquício de arrogância imperial. Fontes israelenses argumentam que o povo judeu tem o direito de viver e construir em toda a extensão histórica da Terra de Israel — incluindo a Judeia e Samaria —, lembrando que já em 1917 a própria Grã-Bretanha, por meio da Declaração Balfour, reconheceu oficialmente o direito do povo judeu de reconstruir seu lar nacional nessa terra, e que o mandato britânico sobre a Palestina, herdado da extinta Liga das Nações, tinha exatamente esse propósito declarado.

A esse argumento histórico soma-se uma acusação de hipocrisia: o Reino Unido ainda administra territórios ultramarinos a milhares de quilômetros de suas costas — como Gibraltar, as Ilhas Malvinas (Falklands), as Ilhas Cayman e Bermuda —, geralmente defendidos em nome da autodeterminação das populações locais e de interesses estratégicos britânicos. Para críticos israelenses, é no mínimo contraditório que Londres invoque esses mesmos princípios para negar ao povo judeu o direito de viver em áreas estratégicas de sua pátria histórica documentada há milênios. Autoridades israelenses também apontam que a condenação britânica ignora sistematicamente o terrorismo palestino, a incitação e a política de pagamentos da Autoridade Palestina a famílias de presos e atacantes — e que esse padrão de cobrança unilateral já vem sendo associado, por comentaristas judaicos britânicos, ao aumento de incidentes antissemitas no Reino Unido.

Autoridades ligadas a Ma’ale Adumim, por sua vez, defendem que o projeto E1 não compromete a liberdade de movimento palestina, citando planos de investimento em infraestrutura viária capazes de manter o tráfego contínuo entre o norte e o sul da Cisjordânia — um argumento que se choca diretamente com a leitura britânica e da ONU sobre o efeito de fragmentação territorial do projeto.

O contexto mais amplo da política britânica

A condenação de Miliband não é um episódio isolado, mas a continuidade de uma linha que o governo trabalhista de Keir Starmer vem consolidando desde que assumiu o poder. Em setembro de 2025, o Reino Unido reconheceu formalmente o Estado da Palestina — ao lado de Canadá e Austrália —, justificando a medida como forma de preservar a viabilidade de uma solução de dois Estados diante da guerra em Gaza e da expansão de assentamentos, embora tenha feito a ressalva de que o Hamas não teria papel em um futuro Estado palestino.

Desde então, Londres suspendeu parte das licenças de exportação de armas para Israel, sancionou ministros israelenses de extrema-direita — como Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir — e vem cobrando publicamente mais acesso humanitário a Gaza e medidas contra a violência de colonos na Cisjordânia. A chegada de Miliband à chancelaria, em julho de 2026, não alterou essa trajetória: a pressão por ajuda humanitária, a condenação da expansão de assentamentos e a defesa da solução de dois Estados seguem como eixos centrais da política britânica para a região.

A crítica israelense: um império que se recusa a desaparecer

É nesse ponto que ganha força a crítica de setores israelenses e de comentaristas pró-Israel: a de que o Reino Unido ainda se comporta, na prática, como uma potência com autoridade moral para ditar políticas a Israel — herança de um tempo em que, de fato, administrava o Mandato da Palestina sob a Liga das Nações.

A linguagem da declaração britânica — “não toleraremos”, “exigimos mudança imediata”, “pacote de medidas” — carrega o tom de quem se sente no direito de impor termos a uma nação soberana. Nessa leitura, Israel é tratado não como um Estado independente exercendo responsabilidades de segurança legítimas após o massacre de 7 de outubro de 2023 e décadas de recusas palestinas a propostas de paz, mas como um ator que deve prestar contas a Londres.

Esse episódio se insere em um padrão mais amplo: o isolamento diplomático crescente de Israel na Europa Ocidental desde o início da guerra em Gaza, marcado por reconhecimentos do Estado palestino, sanções seletivas e ameaças de consequências comerciais — enquanto, segundo críticos israelenses, o papel do Hamas, a incitação sistemática e os pagamentos da Autoridade Palestina a terroristas recebem tratamento comparativamente mais brando.

O que está em jogo em E1

A área E1 tem cerca de 12 km² e é considerada estratégica por ambos os lados. Para seus opositores — que incluem a ONU, a União Europeia e a maior parte dos governos ocidentais —, a construção em larga escala isolaria Jerusalém Oriental e cortaria a continuidade territorial entre o norte e o sul da Cisjordânia, inviabilizando um Estado palestino contíguo. Para defensores israelenses, entre eles o ministro das Finanças Bezalel Smotrich, a expansão consolida a presença judaica na região e impede a formação de um Estado palestino que consideram uma ameaça existencial. O plano de 3.400 unidades para a área já havia sido aprovado no ano passado, provocando condenação de dezenas de países — o atual edital de 1.234 unidades é a primeira etapa concreta de execução.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, também condenou o edital, expressando preocupação com seu impacto sobre a integridade territorial dos territórios palestinos ocupados e sobre a solução de dois Estados.

Conclusão

O episódio E1 é mais do que um atrito diplomático pontual: é um choque entre duas autoimagens. De um lado, um Reino Unido que se vê como guardião do direito internacional e da solução de dois Estados, disposto a pressionar e sancionar para impor essa visão. De outro, um Israel que rejeita esse papel arbitral por vir de uma potência que, há mais de um século, teve papel central na promessa de um lar nacional judeu — e que hoje, para seus críticos, parece ter esquecido esse contexto histórico ao ditar onde os judeus podem ou não construir em sua própria terra.

Se essa crítica tem fundamento histórico ou se simplifica uma relação diplomática bem mais complexa é, em si, matéria de debate legítimo. O que parece certo é que o resultado prático, por ora, é o agravamento das tensões bilaterais — e a percepção, em Jerusalém, de que Londres tem contribuído mais para o isolamento diplomático de Israel do que para uma paz realista e sustentável.

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