Joel Haber, natural de São Paulo, tornou‑se, nos últimos anos, uma referência nacional quando o assunto é a culinária tradicional judaica, em especial o cholent, prato de cozimento lento que acompanha o Shabat desde a Antiguidade. Em entrevista concedida ao *Times of Israel*, o chef e pesquisador conta que sua paixão pela gastronomia judaica nasceu na infância, quando ajudava a avó a preparar as refeições de fim de semana, absorvendo aromas e técnicas transmitidas de geração em geração.
A trajetória de Haber começou na cozinha de um restaurante kosher em São Paulo, onde trabalhou como ajudante de cozinha antes de estudar gastronomia na França. Foi na Europa que ele se aprofundou nos diferentes estilos de cholent – desde o “cholent de Berlim”, com carne de vaca e batatas, até o “cholent de Nova Iorque”, que incorpora feijão preto e pimentões. Ao retornar ao Brasil, decidiu reunir esses conhecimentos em um projeto que visa preservar a identidade culinária dos judeus de diferentes diásporas, ao mesmo tempo que adapta o prato ao paladar local, usando ingredientes como mandioca e carne de cordeiro de criação sustentável.
Haber explica que o cholent não é apenas um prato, mas um símbolo de resistência e continuidade. O cozimento lento, que começa antes do pôr‑sol de sexta‑feira e termina na manhã de sábado, permite que famílias observantes cumpram a proibição de cozinhar durante o Shabat, ao mesmo tempo que compartilham uma refeição quente e nutritiva. O chef destaca ainda o aspecto comunitário: em muitas sinagogas brasileiras, o cholent é preparado em grande escala por voluntários e servido a quem chega ao serviço religioso, reforçando laços de solidariedade.
O entrevistado também aborda os desafios de manter a tradição em tempos de modernização. Ele relata que a popularização de eletrodomésticos como panelas de pressão e slow cookers facilitou a preparação, mas que há o risco de simplificar excessivamente a receita, perdendo nuances históricas. Por isso, Haber promove workshops e cursos online, nos quais ensina técnicas de marinação, uso de especiarias como páprica e cominho, e a importância de deixar o prato “descansar” durante a noite para que os sabores se integrem plenamente.
Em termos de impacto cultural, a iniciativa de Haber tem despertado interesse não só entre judeus, mas também entre não‑judeus curiosos sobre a culinária de origem. Restaurantes kosher em cidades como Rio de Janeiro e Curitiba já incluíram versões autorais do seu cholent nos cardápios, e chefs de outras tradições gastronômicas têm experimentado a técnica de cozimento lento como inspiração para pratos próprios. Esse intercâmbio reforça a percepção de que a culinária pode ser ponte entre comunidades, promovendo o respeito mútuo e a valorização da herança judaica.
Quanto às possíveis implicações, o trabalho de Haber pode contribuir para a preservação da identidade judaica no Brasil, especialmente entre jovens que muitas vezes se afastam das práticas religiosas. Ao transformar o cholent em um elemento de orgulho cultural, ele cria um ponto de conexão entre a tradição religiosa e a vida contemporânea. Além disso, a difusão do prato pode estimular a economia de produtores locais de legumes, carnes e especiarias, gerando um efeito positivo na cadeia produtiva de alimentos kosher. Por fim, ao divulgar a história e o significado do cholent em plataformas digitais, Haber amplia a narrativa israelense e judaica no cenário internacional, reforçando a imagem de um povo cuja cultura se mantém viva através da mesa.
📖 Perspectiva Bíblica
“Honra o sábado, para que o teu Deus te dê descanso; pois ao sétimo dia fez o Senhor o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há.” (Êxodo 20:8‑10)
Fonte original: Peoples of Israel: Joel Haber, the cholent maven — Times of Israel
