Os recentes acontecimentos no Iêmen trazem consequências preocupantes para Israel, sobretudo porque revelam um enfraquecimento da postura dos Estados Unidos na região. O ponto central da crise é a tomada pelos houthis do estreito de Bab al‑Mandeb, rota estratégica que controla o tráfego marítimo entre o Oceano Índico e o Mar Vermelho. Essa conquista não só ameaça o comércio global – ao criar riscos de interrupções nas rotas de energia e de mercadorias – como também eleva o prestígio do Irã, que tem mantido estreitos laços de apoio aos houthis. O avanço dos rebeldes iemenitas, portanto, representa um duplo desafio: logístico, ao comprometer a segurança das rotas comerciais, e geopolítico, ao reforçar a influência iraniana num cenário já tenso.
A postura americana, no entanto, tem sido de retração. Em declarações feitas no último fim de semana, o presidente Donald Trump afirmou que “os houthis nos ligaram e não querem lutar contra nós”, sinalizando uma clara relutância em envolver as forças dos EUA em um novo front militar. Essa atitude contrasta com a imagem de “policial do mundo” que o presidente buscava projetar nos primeiros meses de seu segundo mandato. A explicação dada aponta para a proximidade das eleições de meio de mandato nos EUA, combinada a relatos de problemas de manutenção de equipamentos militares e escassez de munições. O que antes era uma campanha ativa contra os houthis, iniciada no ano anterior, foi abandonada em poucas semanas, deixando Israel e outros aliados a arcarem com a responsabilidade de conter a ameaça.
A Arábia Saudita, que havia solicitado apoio americano, agora se vê cercada por forças hostis: o Irã de um lado e os houthis do outro. Com capacidades defensivas limitadas, Riad corre o risco de sofrer danos significativos em sua infraestrutura e em suas exportações de petróleo. Caso o custo da contenção se torne insustentável, a monarquia pode reconsiderar sua política externa, aproximando‑se ainda mais de Teerã ou, ao menos, estreitando laços com países como Turquia, Paquistão e Qatar, o que poderia reconfigurar o equilíbrio de poder no Golfo.
Israel, por sua vez, tem mantido uma postura de observação cautelosa. Embora não tenha intervenido diretamente no Iêmen, já sofreu impactos diretos – a interrupção do comércio marítimo – e indiretos, ao ver o fortalecimento de grupos radicais que poderiam representar ameaças futuras. No ano passado, o país realizou ataques que eliminaram vários líderes políticos e militares dos houthis, mas a recente tomada de Bab al‑Mandeb demonstra que a avaliação israelense sobre o equilíbrio interno iemenita e a real capacidade dos rebeldes foi equivocada. Dessa forma, Israel precisa se preparar para a possibilidade de um novo confronto, seja por iniciativa própria ou por reação a movimentos houthis.
Paralelamente, o foco de segurança de Israel continua voltado para o Irã. Relatórios divulgados pouco antes das festas religiosas apontam atividades no complexo subterrâneo de Pickaxe Mountain, próximo à instalação nuclear de Natanz. Ainda não está claro se se trata apenas de obras de infraestrutura ou de um esforço para reiniciar o programa nuclear iraniano. Trump sugeriu que a questão iraniana poderia ser resolvida antes ou depois das eleições de meio de mandato, mas não parece inclinar‑se por uma escalada militar, sobretudo porque as sanções econômicas contra Teerã têm ganhado eficácia. Israel prefere agir contra o Irã de forma autônoma, porém reconhece que qualquer ação de grande escala exigirá aprovação explícita de Washington.
No âmbito regional, o Exército de Defesa de Israel (IDF) concluiu recentemente a destruição de túneis do Hezbollah na crista de Ali al‑Taher, no sul do Líbano, marcando a segunda rede subterrânea estratégica desmantelada. Esse esforço demonstra a determinação israelense em neutralizar infraestruturas que poderiam ser usadas para ataques, ao mesmo tempo em que evidencia a complexidade de uma frente múltipla que inclui houthis, Hezbollah e a ameaça nuclear iraniana. Em suma, o avanço dos houthis, a hesitação americana e a instabilidade no Irã criam um cenário de maior vulnerabilidade para Israel, que terá de equilibrar suas respostas militares com a necessidade de apoio diplomático dos aliados ocidentais.
📖 Perspectiva Bíblica
“Quando os povos se rebelam contra o Senhor e se levantam contra ele, os planos dos soberbos se desfazem.” (Salmos 2:1‑2)
Fonte original: Houthis grow stronger as Trump turns his back on US allies — Israel Hayom
