Omri Miran passou quase dois anos como refém nas mãos do Hamas, entre 7 de outubro de 2023 e 31 de julho de 2025, quando foi libertado após 738 dias de cativeiro. Ao retornar, encontrou sua família fragmentada: duas filhas pequenas, uma esposa que havia assumido novas rotinas e um lar que, embora ainda fosse Nahal Oz, já não existia mais como antes. A história dos Miran ilustra o drama de centenas de famílias israelenses que, após o ataque de 7 de outubro, foram arrancadas de suas comunidades e agora lutam para reconstruir suas vidas em meio a perdas físicas, emocionais e psicológicas.
Instalados em Carmit, um assentamento novo no sul de Israel, Omri e sua esposa Lishay decidiram plantar uma romãzeira no quintal da casa pré-fabricada. O gesto simboliza a tentativa de fazer brotar nova vida num solo ainda desconhecido, sem esquecer as raízes de Nahal Oz, que “sempre será o lar”. Essa dualidade — criar os filhos em um lugar e, ao mesmo tempo, manter viva a memória do antigo — tem sido o eixo central da reabilitação da família.
A reintegração de Omri começou com um intenso programa de apoio no centro de reabilitação Ezra LeMarpeh, fundado pelo rabino Elimelech Firer, em Sderot. Lá, além de fisioterapia e acompanhamento psicológico, o foco foi “reabilitação” no sentido mais amplo: compreender o novo lugar que cada um ocupa no mundo e como a família pode se reencontrar. Omri descreve o processo como “viver, mas não estar realmente vivendo”, ressaltando que o retorno físico à casa não equivale ao retorno à vida plena. O pai precisou aceitar que, embora estivesse vivo, ainda não possuía a força necessária para ser o pai que desejava ser.
A relação com as filhas, Alma, de seis meses quando foi sequestrado, e outra de dois anos e meio, foi particularmente desafiadora. Ao vê‑las novamente, Omri percebeu que elas não reconheciam imediatamente o pai: “Você chega e é natural, mas sua filha não tem certeza se isso é real”. O vínculo precisou ser reconstruído aos poucos, com muita paciência e culpa – sentimento inevitável para quem sobreviveu enquanto familiares foram mortos ou ainda permanecem desaparecidos. A culpa, porém, serviu como ponto de partida para a aceitação de que não há atalhos na cura; cada passo exige esforço conjunto da família e dos profissionais envolvidos.
O casamento também precisou de reconfiguração. Lishay, que antes compartilhava as tarefas domésticas e as atividades ao ar livre com Omri, teve de assumir novas responsabilidades durante a ausência do marido. Agora, ambos precisam renegociar papéis, aprender a comunicar emoções ainda não processadas e reconstruir a intimidade que foi interrompida pelo trauma. Esse processo, embora doloroso, tem sido visto como oportunidade de fortalecer laços, ao invés de simplesmente restaurar o que existia antes.
As implicações desse relato vão além da história individual dos Miran. Eles representam milhares de famílias que, após o ataque de 7 de outubro, enfrentam o dilema de se estabelecer em novos assentamentos enquanto carregam o peso da perda e da memória de comunidades destruídas. O governo israelense tem intensificado programas de habitação e apoio psicológico, mas a demanda supera a oferta, especialmente em áreas como Sderot, onde centros de reabilitação como o Ezra LeMarpeh se tornam pontos de convergência para vítimas de guerra. A experiência dos Miran evidencia a necessidade de políticas públicas que integrem assistência médica, apoio psicossocial e projetos de coesão comunitária, para que o processo de “viver novamente” seja efetivo.
Ao plantar a romãzeira, Omri celebra não só a esperança de frutos futuros, mas também a resiliência de um povo que, apesar das cicatrizes profundas, busca transformar o trauma em crescimento. A história dos Miran mostra que a reconstrução de vidas pós‑cativeiro exige tempo, apoio institucional e, sobretudo, a disposição de aceitar que o novo lar pode ser diferente, mas ainda assim pode se tornar um verdadeiro refúgio para a família.
📖 Perspectiva Bíblica
“Vejam, faço coisa nova; já está surgindo; porventura não perceberão?” (Isaías 43:19)
Fonte original: 'Now I'm living': Omri Miran rebuilds life after Hamas captivity — Israel Hayom
