A nova obra da rabina Noa Kushner, “Pretend You Believe”, chega às livrarias no dia 13 de outubro trazendo uma mensagem que reverbera como um convite à reflexão profunda sobre a própria fé judaica. Ao contrário de muitos textos contemporâneos que tratam a religião como ferramenta de bem‑estar ou como solução prática para os desafios da vida moderna, Kush Kushner propõe que o ponto de partida seja, antes de tudo, a pergunta essencial: o que significa entrar em um relacionamento autêntico com Deus?
A autora, conhecida por seu trabalho como educadora e líder espiritual, critica a tendência de perguntar “o que o judaísmo pode fazer por mim?” e, em vez disso, sugere que a comunidade judaica volte seu olhar para a própria disposição de acreditar, mesmo que de forma simulada, como ponto de partida para uma conexão genuína. O título provocativo “Pretend You Believe” (Finja que você acredita) não é um chamado ao cinismo, mas um estímulo a experimentar a prática da fé como um exercício que pode abrir espaço para a experiência real da presença divina.
Kushner contextualiza sua proposta dentro de um cenário em que a identidade judaica tem sido cada vez mais medida por indicadores externos – como o nível de observância, a participação em rituais ou a filiação a movimentos religiosos – e menos pela interioridade espiritual. Ela aponta que, ao transformar a religião em um mero “produto de melhoria de vida”, corre‑se o risco de reduzir o judaísmo a um conjunto de técnicas de bem‑estar, desvirtuando seu sentido original de pacto e diálogo com o sagrado.
Ao longo do livro, a rabina apresenta narrativas pessoais, referências bíblicas e interpretações de textos clássicos que ilustram como a “fingimento” inicial pode ser o primeiro passo para uma fé viva. Ela relata, por exemplo, momentos em que, ao participar de um serviço de Shabat sem estar plenamente convencida, acabou sentindo uma presença que ultrapassava a mera formalidade. Essa experiência, segundo ela, demonstra que a prática pode preceder a crença, e não o contrário, invertendo a lógica comum de que a fé nasce primeiro e depois se manifesta em ação.
As implicações da tese de Kushner são amplas para a comunidade judaica, tanto na diáspora quanto em Israel. No Brasil, onde o judaísmo enfrenta o desafio de manter suas tradições em meio a uma sociedade secularizada, a proposta de “fingir” pode oferecer um caminho menos intimidador para jovens que se sentem afastados das práticas religiosas. Em Israel, onde o debate sobre o papel da religião no Estado é intenso, a obra pode inspirar uma reavaliação da relação entre identidade nacional e espiritualidade, sugerindo que a conexão com Deus não precisa ser imposta por normas civis, mas cultivada individualmente.
Kushner também aborda a questão da tolerância inter-religiosa, ressaltando que a busca sincera por Deus, ainda que iniciada de forma “fingida”, pode gerar pontes de diálogo com outras tradições que também valorizam a experiência vivida da fé. Ela argumenta que, ao reconhecer a vulnerabilidade humana – a necessidade de “fingir” antes de crer – abre‑se espaço para a empatia e para o reconhecimento de que todas as religiões lidam com a mesma tensão entre dúvida e devoção.
Em síntese, “Pretend You Believe” não é um manual de técnicas espirituais, mas um convite a repensar a própria atitude diante da religião. Ao sugerir que o primeiro passo seja a disposição de fingir crença, Noa Kushner desafia o leitor a abandonar a mentalidade utilitarista que reduz o judaísmo a um meio de melhorar a vida, e a abraçar, ainda que de forma incipiente, a possibilidade de um relacionamento autêntico com o Divino. O livro promete gerar discussões sobre a natureza da fé, a relevância da prática religiosa e o futuro da identidade judaica em um mundo cada vez mais pragmático.
📖 Perspectiva Bíblica
“Sem fé é impossível agradar a Deus, pois quem dele se aproxima precisa crer que ele existe e que recompensa os que o buscam.” (Hebreus 11:6)
Fonte original: We need religion, writes rabbi in her new book, but it’s not there to make our lives better — Times of Israel
