As autoridades de segurança do Líbano prenderam um cidadão libanês pertencente à família Khalifeh (também transliterada como Khalifa), acusado de atuar como agente de inteligência de Israel e de fornecer informações altamente sensíveis sobre comandantes do Hezbollah. Segundo fontes judiciais ouvidas pelo jornal Asharq Al-Awsat, o suspeito é considerado “um dos agentes mais perigosos” já identificados devido ao elevado nível de acesso que possuía dentro dos círculos próximos da organização xiita.
A prisão ocorre em um momento em que as autoridades libanesas intensificam investigações sobre uma extensa rede de espionagem que teria operado durante os confrontos entre Israel e o Hezbollah, especialmente após a série de assassinatos seletivos de altos comandantes da organização ocorridos entre 2024 e 2026.
Índice
Prisão ocorreu no aeroporto de Beirute
Segundo a investigação divulgada pelo Asharq Al-Awsat, os serviços de segurança vinham monitorando o suspeito havia algum tempo.
Ele foi preso no Aeroporto Internacional Rafik Hariri, em Beirute, quando se preparava para embarcar rumo ao Iraque. As autoridades afirmam que já acompanhavam seus deslocamentos internacionais e monitoravam comunicações telefônicas com números considerados suspeitos no exterior.
Uma fonte judicial afirmou que:
“Ele é considerado um dos agentes israelenses mais importantes devido à proximidade com dirigentes do Hezbollah e ao acesso privilegiado a informações extremamente sensíveis.”
As investigações iniciais indicam que essas informações teriam sido utilizadas em operações de inteligência israelenses contra importantes lideranças militares do grupo.
Acusação: informações levaram à eliminação de comandantes do Hezbollah
De acordo com fontes citadas pela AFP e reproduzidas por diversos veículos internacionais, o suspeito é acusado de ter fornecido informações que contribuíram diretamente para operações israelenses que eliminaram diversos comandantes de alto escalão do Hezbollah.
Entre os nomes mencionados pelas investigações estão:
- Fuad Shukr, um dos principais comandantes militares do Hezbollah, morto em um ataque israelense em Beirute em agosto de 2024.
- Ibrahim Aqil, chefe da Divisão de Operações do Hezbollah, morto em setembro de 2024 durante um ataque aéreo israelense contra uma reunião de altos dirigentes.
Segundo os investigadores, o acesso privilegiado do suspeito permitia identificar:
- locais de reunião;
- deslocamentos de dirigentes;
- rotinas de segurança;
- contatos internos;
- infraestrutura utilizada pela organização.
Esses dados seriam posteriormente transmitidos a agentes ligados ao Mossad.
Viagens internacionais despertaram suspeitas
As autoridades libanesas afirmam que o suspeito realizava viagens frequentes ao Iraque — país de origem de sua esposa — e posteriormente seguia para a Turquia.
Segundo a investigação, nesses deslocamentos ele teria realizado encontros presenciais com agentes de inteligência israelenses, aos quais entregava relatórios e informações coletadas em Beirute.
O impacto das infiltrações no Hezbollah
O caso reforça uma percepção que ganhou força após a guerra entre Israel e o Hezbollah: a de que Israel conseguiu desenvolver uma capacidade significativa de infiltração na estrutura da organização.
Nos últimos anos, diversas operações israelenses demonstraram um grau elevado de precisão, incluindo:
- ataques contra centros de comando;
- eliminação de comandantes específicos;
- destruição de depósitos de armas;
- ataques realizados poucos minutos após reuniões internas.
Analistas de segurança consideram que esse nível de precisão dificilmente seria alcançado apenas por satélites, drones ou interceptações eletrônicas, indicando a provável existência de fontes humanas (HUMINT) infiltradas na organização.
Uma série de prisões
A prisão do integrante da família Khalifeh não é um caso isolado.
Segundo fontes judiciais libanesas, dezenas de pessoas foram presas nos últimos meses sob suspeita de colaborar com Israel.
Após a guerra, as autoridades do Líbano passaram a revisar inúmeras operações de inteligência, identificando indivíduos suspeitos de fornecer:
- localização de arsenais;
- movimentação de comandantes;
- rotas de transporte;
- instalações militares utilizadas pelo Hezbollah.
Crise de confiança dentro do Hezbollah
As sucessivas operações israelenses provocaram uma crescente desconfiança dentro da organização.
Especialistas apontam que o Hezbollah passou a adotar medidas mais rígidas de contraespionagem, incluindo:
- restrição do uso de celulares;
- compartimentalização de informações;
- mudanças constantes de rotas;
- limitação do acesso de membros a reuniões estratégicas;
- investigações internas para identificar possíveis colaboradores.
Ainda assim, as recentes prisões sugerem que a rede de infiltração investigada pelas autoridades libanesas pode ter sido mais extensa do que se imaginava.
O papel do Mossad
Embora Israel mantenha sua política tradicional de não comentar operações específicas de inteligência, o Mossad é amplamente reconhecido como uma das principais agências de espionagem do mundo, com histórico de operações clandestinas no Oriente Médio.
Ao longo das últimas décadas, o serviço de inteligência israelense foi associado a diversas ações contra grupos considerados ameaças à segurança de Israel, incluindo campanhas de coleta de inteligência, sabotagem e eliminação de alvos de alto valor estratégico.
No caso atual, não houve confirmação oficial por parte de Israel sobre o suposto recrutamento ou atuação do suspeito preso pelas autoridades libanesas. As informações divulgadas até o momento têm origem em fontes judiciais libanesas e em reportagens da imprensa internacional.
Um episódio que revela a guerra silenciosa da inteligência
A prisão do suposto agente representa mais um capítulo da intensa guerra de inteligência travada entre Israel e o Hezbollah. Enquanto o conflito militar costuma ocorrer de forma visível, uma disputa paralela acontece nos bastidores, envolvendo infiltração, vigilância eletrônica, recrutamento de colaboradores e operações clandestinas.
Se as acusações forem confirmadas pelas investigações e pelo processo judicial, o caso poderá ser considerado uma das infiltrações mais significativas já registradas dentro da estrutura do Hezbollah, justamente pelo acesso privilegiado que o suspeito teria obtido junto às principais lideranças da organização.
