A percepção comum entre os israelenses ao pensar em um clérigo xiita no Líbano associa‑o automaticamente ao Hezbollah, ao ponto de a ligação entre religião, a organização e o Irã parecer indissolúvel. Contudo, a realidade interna da comunidade xiita libanesa revela uma disputa de longa data sobre quem detém a autoridade para falar em nome dos xiitas do país. Essa disputa tem raízes que remontam ao Conselho Supremo Islâmico Xiita, fundado por Imam Musa al‑Sadr em 1967, quando, pela primeira vez, os xiitas contaram com uma instituição oficial reconhecida pelo Estado libanês. A misteriosa desaparecimento de al‑Sadr em 1978 e a ascensão do Hezbollah abriram espaço para um conflito de legitimidade entre as instituições comunitárias tradicionais e o movimento político‑militar que se alinhou ao conceito iraniano de *wilayat al‑faqih* (guarda‑tutela do jurista).
Um dos protagonistas desse embate foi o xeque Mohammad Mehdi Shamseddine, presidente do Conselho Supremo até 2001. Embora não fosse “anti‑Hezbollah” no sentido estrito – ele apoiava a resistência contra Israel – Shamseddine defendia uma visão xiita centrada no Estado, na cidadania e na integração dos xiitas nos países onde viviam, contrapondo‑se à doutrina iraniana que coloca a autoridade religiosa acima das estruturas nacionais. Essa postura encontrou eco em outros líderes religiosos, como o Grande Aiátolá Mohammed Hussein Fadlallah, que também mantinha certa independência em relação a Teerã e não aceitava plenamente o modelo de *wilayat al‑faqih*. A existência desses vozes demonstrava que, mesmo dentro de um ambiente fortemente associado ao Hezbollah, não havia uniformidade ideológica.
Na geração seguinte, a oposição tornou‑se mais explícita. O xeque Ali al‑Amin, mufti xiita de Tiro e Jabal Amel, denunciou publicamente a tutela iraniana, a participação do Hezbollah na guerra civil síria e a subordinação dos xiitas libaneses ao projeto de Teerã. Ao seu lado, intelectuais religiosos como Hani Fahs promoveram uma identidade xiita baseada na cidadania, no pluralismo e na convivência pacífica dentro do Líbano. Embora esses grupos não mobilizem massas comparáveis às do Hezbollah, sua importância reside no fato de questionarem a legitimidade religiosa que sustenta o movimento armado.
O Hezbollah, além de ser um partido político armado, apoia‑se em um sistema de autoridade religiosa que legitima sua ação. Quando a crítica vem de um clérigo xiita, ela atinge diretamente a pretensão do Hezbollah de ser não apenas a força política dominante entre os xiitas libaneses, mas também o representante natural de sua visão religiosa. Assim, o conflito interno transcende questões de armamento ou de alianças externas; trata‑se de uma luta profunda sobre quem define a identidade xiita no Líbano.
As implicações são múltiplas. Primeiro, a presença de lideranças religiosas independentes indica que o Hezbollah não detém monopólio ideológico sobre a comunidade xiita, o que pode abrir espaço para alternativas políticas mais moderadas ou alinhadas aos interesses libaneses soberanos. Segundo, a crítica interna pode enfraquecer a narrativa de unidade que o Hezbollah usa para justificar seu apoio ao Irã, dificultando a mobilização de recursos e recrutas. Por fim, para Israel, reconhecer essas fissuras internas pode ser estratégico: ao apoiar discretamente vozes que defendem a cidadania e o pluralismo, é possível minar a influência iraniana e reduzir a ameaça que o Hezbollah representa para a segurança regional. Em suma, a disputa entre o Hezbollah e os xiitas independentes do Líbano reflete uma batalha de legitimidade que, embora ainda incipiente em termos de massa popular, tem o potencial de remodelar o panorama político e de segurança do Oriente Médio.
📖 Perspectiva Bíblica
“Porque eu bem sei os pensamentos que penso de vós, diz o Senhor; pensamentos de paz e não de mal.” (Jeremias 29:11)
Fonte original: What Lebanon's Shiites don't tell you about Hezbollah — Israel Hayom
