A Conquista de Yodfat, Flávio Josefo – Programa Odisséia Judaica

A História do Povo de Israel é repleta de momentos dramáticos, não somente nas histórias bíblicas, mas ao longo de sua jornada desde a antiguidade. Muito do que conhecemos sobre o que ocorreu durante a Grande Revolta Judaica no ano 70 da EC, é por causa dos relatos do historiador judaico-romano, Flávio Josefo. E nesta história de Yodfat, ele revelou o que o transformou em um doa mais contraditórios e discutíveis historiadores da antiguidade.

Flávio Josefo escreveu três importantes obras, a primeira e mais importante delas é Guerra dos Judeus, que trata do período helenistico e romano da história do seu povo. O segundo livro trata da saga do Povo de Israel desde os primórdios da história até o período helenístico, e se chama Antiguidades Judaicas, a terceira importante obra é o livro A Vida de Yosef ( Josefo, José ), obra a qual os historiadores dizem que ele escreveu para justificar suas atitudes, consideradas como traição ao seu povo.

Neste capítulo de Yodfat, trazemos um relato sobre o que ocorreu na mais importante batalha de sua vida, em que ele mesmo foi o comandante responsável por defender a cidade, pelo fracasso, a derrota e a rendição. A partir deste momento, Flávio Josefo se tornara mais uma peça no jogo de xadrez romano, a caminho do movimento judaico de independência na segunda metade do primeiro século da EC.

Flávio Josefo já havia lidado com diversas tentativas de deporem-no do posto de governante da Galiléia, que havia sido nomeado pelo governo rebelde concentrado em Jerusalém. Ele havia fracassado na conquista de Tzipori – Séforis, e agora estava encurralado em Yodfat.

O Cerco de Yodfat

Vespasiano estava ansioso para destruir Yodfat, pois soube que a maioria dos rebeldes fugiram para lá e a fortificaram. A conquista de Yodfat durante o verão poderia enfraquecer todos os rebeldes na Galiléia e talvez até suprimir toda a revolta. No dia 21 de Iyar, Flávio Josefo deixou Tiberíades e chegou a Yodfat, para comandá-la durante o cerco. Incialmente, eles faziam ataque fora da muralha para repeliram os romanos repetidamente.

Por causa dos ataque de guerrilha, os romanos decidiram construir uma rampa de cerco na frente da muralha, e quando este atingiu quase a altura de seus dentes, Josefo iniciou uma operação para erguê-la ainda mais e fortalecê-la. A elevação encorajou os judeus a retomar os ataques, o que levou Vespasiano a parar de lutar e continuar o cerco até que os defensores da cidade estivessem exaustos ou morressem de fome e cede.

Os judeus sitiados tinham comida suficiente, mas sofriam com a falta de água porque o cerco era no verão e dentro da cidade não havia nenhuma fonte. Josefo já controlava a distribuição de água com moderação desde o início do cerco, mas a redução na distribuição de água suprimiu o ânimo dos judeus e os romanos sabiam disso.

Por causa disso, ele começou uma guerra psicológica, ordenando a seus homens que mergulhassem suas roupas na água e as pendurassem no parapeito da muralha, para que os romanos vissem a água escorrer ao longo dela e se desesperassem de suas esperanças de conquistar a cidade com a ajuda da escassez, e de fato isso fez com que Vespasiano voltasse à guerra.

Depois que os romanos descobriram que os judeus estavam enviando cartas e recebendo alimentos através de uma fenda de muito difícil acesso, eles a fecharam, e Josefo percebeu que a cidade não duraria muito. Ele precisava planejar como escaparia dela. Flávio planejava deixar a cidade para reunir mais pessoas das aldeias da Galiléia e desviar os romanos de Yodfat para uma nova guerra, mas os habitantes da cidade o dissuadiram do ato e ele decidiu ficar. Desesperado, ele saiu com seus guerreiros, invadiu o acampamento romano e atacou os construtores da rampa. Essas invasões duraram muitos dias. Quando a rampa se aproximou da muralha, trouxeram para ela o aríete de ferro, que em seus repetidos golpes naquele ponto, estava prestes a derrubar a parede. Josefo então ordenou que os sacos fossem enchidos com palha e amarrados ao local onde o aríete atingia, a fim de reduzir a força do golpe. Essa ação inibiu os romanos, mas eles recorreram a um contra-truque: amarraram foices nas pontas de varas compridas e com a ajuda delas cortaram as cordas que prendiam os sacos.

Os romanos tomam Yodfat

“Como último recurso”, Flávio Josefo apelou para o uso do fogo. Seus soldados irromperam e queimaram as máquinas de guerra romanas. Estes, no entanto, restabeleceram o aríete de ferro e continuaram a bater na parede até esta se rompeu durante a madrugada. Enquanto Vespasiano se preparava para invadir a cidade no dia 20 de Sivan, Josefo confiou os mais fortes de seus guerreiros às brechas da parede enquanto enviou os mais velhos e exaustos para proteger o resto. À frente de cada grupo encarregado das brechas, ele colocou 6 pessoas que estavam a liderança, e ele estava entre eles. Ele ordenou que fechassem os ouvidos para não se assustarem com o som das legiões, se ajoelhassem e se cobrissem com seus escudos contra as flechas, recuassem um pouco até que as bestaas fossem esvaziadas e os disparos parassem, e se preparassem para o momento em que os romanos subissem nas escadas e pontes para invasão.

Já em sua palavra preparatória que deu antes do ataque de Vespasiano, Josefo sabia que não tinha mais nenhuma chance de continuar o cerco e tentou inspirar a motivação por desespero com as seguintes palavras:

היום הזה ילחם כל איש מכם לא למען הצל את עירו, רק למען קחת נקם על חורבנה, על־כן ישים לנגד עיניו את מראה הזקנים והטף הנשחטים בידי האויב ואת פני הנשים העתידות להרג במהרה ויאסוף את כל זעמו על הצרות הבאות וישפוך אותו על ראשי עושי הרעה

Neste dia cada um de vós, não lutaremos para salvar sua cidade, mas para nos vingarmos a sua destruição. Que cada um coloque diante de si a visão dos idosos e as crianças que são massacrados pelo inimigo e os rostos das mulheres que estão prestes a serem mortas, e reuna toda a sua ira contra os males que hão de vir, e derrame sobre a cabeça dos que praticam o mal.

A visão do exército cercando a cidade aterrorizou as mulheres e crianças. Josefo temeu que a gritaria e o choro afrouxassem o coração dos guerreiros e ordenou que as mulheres fossem trancadas em suas casas e silenciadas com ameaças. Quando o ataque romano começou, os guerreiros judeus seguiram as instruções que receberam, mas depois de um tempo enfraqueceram. Os soldados romanos agora se amontoavam sob seus escudos como um bloco em uma estrutura de “tartaruga”, e Josefo ordenou derramar óleo fervente sobre eles, que os espalhou sobre a muralha e os derrubou das pontes. No 47º dia do cerco, a rampa romano ergueu-se acima da muralha da cidade. Na vigília da última noite, os soldados romanos escalaram o muro, massacraram os guardas, entrando na cidade. Eles os capturaram e mataram aqueles que se escondiam em grutas e cavernas. Vespasiano ordenou que a cidade fosse completamente destruída e suas fortificações queimadas. Yodfat caiu no dia 1º de Tamuz (20 de julho de 67 da EC), para nunca mais ser re-erguida.

Com a queda da cidade, José desceu a uma “cova funda ligada a uma caverna espaçosa”, escondida dos olhos de quem estava acima, onde se reuniu aos 40 nobres da cidade, que se esconderam em um local com comida suficiente para muitos dias. Durante o dia Josefo permaneceu na caverna, mas à noite subia dela e procurava uma saída, e quando viu que os romanos haviam colocado guardas em todos os lugares, foi forçado a voltar para a caverna. No terceiro dia de seu esconderijo, uma mulher capturada revelou o lugar aos romanos e Vespasiano enviou dois tribunos militares à caverna para persuadir Josefo a se render.

Depois de falhar em sua missão, já que Josefo temia que “os romanos o julgassem”, Vespasiano enviou um terceiro tribuno, Nicanor, que era amigo de Josefo. Flávio Josefo ouviu a voz de seu amigo contra o pano de fundo das vozes furiosas dos homens do exército que incendiar a caverna, mas isso lhes foi proibido, e decidiu se render. Em resposta, as pessoas na caverna o cercaram, esbofetearam-no por querer livrar sua pele e ameaçaram matá-lo se ele decidisse se entregar. Eles argumentaram que deveriam morrer pela espada e não se render, e deram um ultimato a ele: Ele deveria morrer com honra ou morreria em suas mãos.

A rendição de Flávio Josefo

Josefo tentou persuadi-los, a pedir-lhes que não se matassem, mas o povo ficou muito irados com ele e o amaldiçoaram por sua covardia. Eles o cercaram com espadas desembainhadas e ameaçaram espancá-lo. Então Flávio Josefo se aproximou deles com uma sugestão:

Se eles decidissem cometer suicídio, eles deveriam lançar a sorte de tal forma que determinaria a ordem de sua morte (um método mais tarde conhecido como o problema de Josefo), com cada vez, aquele que está destinado a morrer por seu próximo, seria morto pelo outro ao lado. Desta forma, ninguém teria que se matar e não poderia se arrepender após a morte de seu amigo. Os quarenta líderes concordaram com a oferta e o ato de suicídio foi realizado, e no final Josefo ficou por último com mais uma pessoa. Ele não queria morrer “nem contaminar sua mão com sangue de um companheiro”, ele convenceu seu amigo a não se suicidar e se render aos romanos para salvar suas vidas.

Flávio Josefo pe levado cativo

Flávio Josefo, conhecido em Hebraico como Yosef Ben Mattittiyahu foi conduzido por Nicanor a Vespasiano através da multidão romana, que foi obrigada a ver o comandante judeu de perto. Vespasiano ordenou que uma “guarda forte” fosse colocada sobre ele e decidiu enviá-lo a Nero.

Ao ouvir isso, Flávio Josefo pediu que Vespasiano fosse informado de que ele tinha um segredo para contar a ele em particular. Na presença de Tito e dois amigos do comandante, Flávio Josefo lhe disse que havia recebido uma revelação divina. Ele pronunciou uma profecia a Vespasiano, que também é mencionada pelos historiadores romanos Suitonius e Dio Cassius dizendo:

“Um dos cativos dos nobres, de nome Josefo, enquanto aprisionado em correntes, afirmou com confiança e firmeza de espírito que logo Vespasiano desataria suas algemas, mas que nessa época ele já seria o imperador.”

A história de Flávio Josefo nos revela os dramas, a violência e o ódio que havia entre os judeus e os romanos no primeiro século. Ao se entregar, ele havia traído o seu povo, porém se tornou a principal testemunha da grandiosidade, coragem e determinação de um povo que buscava a sua liberdade a todo custo, e por causa disso, pagou o alto preço de uma diáspora de 2000 anos.

Não perca em nossos próximos artigos e programas Odisséia Judaica, mais detalhes incríveis, relatados por Flávio Josefo.

Desde Sião, Miguel Nicolaevsky

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